sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nona Entrevista - Folha de São Paulo

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* Apresentação

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Uma tomada e posição firme e clara a respeito da atuação dos partidos políticos brasileiros frente aos problemas da classe trabalhadora tem caracterizado, desde o início, os pronunciamentos de Lula. Nesta entrevista, mais uma vez ele expressa seu desapontamento pela omissão dos políticos diante das necessidades da classe trabalhadora. E aponta a falta de trabalhadores entre os parlamentares como a causa de os problemas da classe não serem levados devidamente à Câmara e ao Senado. Daí lula defender criação de um partido dos trabalhadores.
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Fala também da presença das Forças Armadas na vida política e aponta os aspectos negativos dessa presença, inclusive para as próprias Forças Armadas.
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- Que opinião você tem sobre a classe política brasileira? - Em primeiro lugar, a classe política hoje é muito elitista, bastante distanciada da classe trabalhadora. Ainda recentemente, em Brasília, foi decepcionante para nós constatar essa distância dos políticos em relação aos nossos problemas. Mas existem diferenças entre a situação e a oposição. A oposição está cumprindo o papel dela, de criticar os atos oficiais que não condizem com as necessidades do trabalhador. Por exemplo, seus integrantes estão frontalmente contrários ao decreto 1632 e às reformas. Por outro lado, os políticos da situação são obrigados a fazer tudo o que o governo quer. Assim, uns estão comprometidos com os trabalhadores e outros com as regras do jogo.
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Também acho que existem pouquíssimos representantes dos trabalhadores na Câmara e no Senado. Podemos contar, quando muito, meia dúzia de parlamentares que são trabalhadores, vieram do nosso meio. O MBD, é verdade, tem se mostrado bem mais acessível às reivindicação da classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, sendo o partido da oposição. Mas eu acho que, no bipartidarismo, é mais importante escolher o homem que se afina mais com os programas da classe trabalhadora. São esses homens que são escassos. Existem alguns. Devemos separar o bem do mal e não colocar tudo num mesmo saco.
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- É possível criar um partido dos trabalhadores agora, ou você acha que ainda está na hora das alianças do trabalhador com a classe política tradicional? - O problema é o seguinte: eu continuo com a teoria de que, enquanto o trabalhador votar no patrão para que ele proteja nossos interesses, a situação não vai se alterar. Acho que a classe trabalhadora terá que se preparar politicamente para agir politicamente. E realmente penso que a classe trabalhadora deverá fazer um partido político nessa caminhada e um partido que terá mais chance de vencer do que qualquer outro. Um partido político será a saída para a gente e também para outras camadas - todos que são trabalhadores, que vivem de salários, deveriam participar. Falta muito para chegarmos ao estágio do partido político, mas estou convencido de que o caminho é esse. A viagem de algumas lideranças sindicais a Brasília foi um primeiro asso, mas o ideal seria a presença de gente nossa lá, que imediatamente tomasse a posição adotada aqui pelas bases. Há uma confusão quando se fala de participação política. O que eu quero dizer é que os sindicatos de trabalhadores devem exercer uma infuência sobre toda a classe política.
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- As reformas políticas do governo Geisel trazem alguma esperança para a classe trabalhadora? - Essas reformas confirmaram algumas coisas que venho pregando: há muita gente aí que fala em democracia e fala contra a democracia relativa, mas também muita gente que quer a democracia relativa, uma democracia só para eles, sem incluir os trabalhadores. Essa preocupação eu tenho em nome da classe trabalhadora. Há muita gente dentro do partido do governo que não tem coragem de votar contra o decreto 1632. Para eles, a classe trabalhadora só tem direito de produzir, não tem direito de usufruir do que produz.
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- Você tem alguma esperança de que a candidatura do general João Batista Figueiredo, pela Arena, ou a do general Eules Bentes Monteiro, pelo MDB, tragam benefícios concretos aos trabalhadores? - Eu acho que o candidato ideal à presidência da República seria aquele que, escolhido no meio do povo, fosse eleito pelo voto livre e direto da nação. Como trabalhador que sou, impossibilitado de escolher o presidente da República, faço votos que o colégio eleitoral escolha o melhor dentre os dois candidatos indiretos.
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- Como você vê a atuação política dos militares dentro do regime brasileiro? - Num regime democrático normal, os militares, como qualquer outro cidadão, devem participar, concorrer a eleições, etc. Agora, quero chamar a atenção das Forças Armadas para um aspecto muito importante. No mundo inteiro, as Forças Armadas são admiradas pelo povo, porque seu papel principal é assegurar a paz no país, contra ameaças externas. Então, a sociedade em geral admira a abnegação e o esforço dos militares. O que me preocupa é que no Brasil os militares assumiram tantos postos de comando que a culpa de tudo o que acontece de ruim recai sobre eles. Isso é extremamente negativo.
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Já tive oportunidade de conversar com altas autoridades das Forças Armadas no Brasil, e notei que o desconhecimento dos problemas da classe trabalhadora é muito grande. Acho que é importante que os militares deixem de ver os trabalhadores como os únicos responsáveis pela paz social, e que considerem também os empresários como um lado da questão. Seria muito interessante que lideres sindicais pudessem falar na Escola Superior de Guerra, que, a gente nota pelos jornais, é um grande foro de debates da situação nacional, e onde os empresários falam.
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Gostaria de falar na ESG porque seria uma oportunidade para mostrar aos militares que a classe trabalhadora está muito mais interessada na grandeza do Brasil, na criação de um país que seja realmente uma potência, do que a maioria dos empresários, que só pensam nos seus lucros, esquecendo suas obrigações com a nação.
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- Como se resolverá o problema do peleguismo na estrutura sindical brasileira? - Só acabaremos com o pelego quando, livremente, pudermos decidir a configuração de uma nova estrutura sindical para o Brasil, com a participação da classe trabalhadora nessa confecção. Só então poderemos acabar com o comodismo que existe no sindicalismo brasileiro, quando os presidentes de sindicatos não forem mais donos das eleições, quando todas as chapas concorrentes tiverem o mesmo direito de participação.
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- O que separa a classe trabalhadora do governo ? - O que separa o trabalhador do governo é principalmente o modelo econômico implantado que só beneficia as empresas, prejudicando os operários. Nos conflitos que aparecem, o governo, na maioria das vezes, toma o partido dos empresários, sem perceber que só haverá realmente paz social quando existir equilíbrio entre o capital e o trabalho. A prova disso está aí para todo mundo ver: em todos os países desenvolvidos existe esse equilíbrio, o governo não toma sempre o partido dos empresários.
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- Que condições mínimas o governo precisa oferecer para o nascimento de diálogo com os trabalhadores? - O fundamental realmente é a liberdade e a autonomia sindical, com o governo interferindo no relacionamento entre as empresas e os trabalhadores somente quando chamado. Ou seja, que o governo deixe de tutelar a classe empresarial e a classe trabalhadora, como faz até agora. Você veja, quando a inflação aumentou muito, os trabalhadores foram os prejudicados. Nossos salários foram arrochados, as greves foram proibidas e, nem por isso, a inflação diminuiu. Acho que se o governo entendesse, por exemplo, que estamos suficientemente preparados para defender nossos direitos, compreendesse que os trabalhadores são verdadeiros patriotas que se sacrificam pelo desenvolvimento nacional, e que só reivindicamos uma participação justa na riqueza, as coisas ocorreriam melhor. Para isso, é preciso que o governo deixe de fixar índices de aumento salarial que não correspondem à realidade, que são inferiores à inflação e à produtividade dos operário. As negociações diretas entre patrões e empregados são mais realistas; nós sabemos o que podemos pedir, também não queremos aumentos absurdos, que levem os empresários a fechar suas fábricas, porque precisamos trabalhar para sobreviver.
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- Em l976, você dizia que Arena e MDB são iguais, porque há trabalhadores na Arena e patrões no MDB. Depois disso você modificou um pouco sua posição, ou continua com uma visão algo obreirista do processo político? - Sempre tive uma preocupação com os políticos e os intelectuais, porque a história nos mostrou que a classe trabalhadora foi usada e não se beneficiou com isso. Continuo com o mesmo ponto de vista: a classe trabalhadora deve caminhar com suas próprias pernas. Existem certas lutas que a classe trabalhadora deve encaminhar sozinha, como existem outras que não são apenas nossas, mas de toda a nação, Nesses, casos, nós podemos nos aliar a ouros setores sociais.

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- Por exemplo. - Por exemplo, uma greve por maiores salários. Acho que a classe trabalhadora não tem por que se aliar a estudantes, intelectuais e políticos nesse caso, Já reivindicação pelo estado de direito democrático é de interesse de toda a nação, podemos então lutar em comum.
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- Explique melhor como é esse partido do trabalhador que você tem na cabeça. Só entra operário? Alguém mais entra ? A estrutura será baseada na do extinto PTB? - Primeiro, há uma diferença muito grande em achar que deve ser de uma maneira e saber se na realidade é possível ser dessa maneira. Eu não tenho um partido na cabeça. Quando falo em partido, não falo em partido trabalhista, mas em partido do trabalhador. Nada parecido como extinto PTB, que, pelo que sei, era composta também por patrões. Acho que devemos começar pela participação política do trabalhador, sem prevenção contra ninguém, sem discriminar siglas. É essa participação que vai canalizar depois para a criação do partido.
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Nesse período, temos que nos preocupar com a identificação de políticos que estejam dispostos a levantar nossas bandeiras, porque também não podemos abandonar nossos sindicatos para disputar eleições legislativas. É preferível, atualmente, buscar esses políticos mais identificados com a classe trabalhadora. Existem pessoas assim no Brasil. Ao mesmo tempo, vamos tentar renovar essa estrutura sindical questionando os dirigentes omissos.
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Ainda acho que as autoridades deveriam levar a sério os dirigentes sindicais autênticos. Porque posso dizer, sem medo de errar, que os dirigentes omissos que cercam o governo, que querem enganar a classe trabalhadora e o governo, todos estão mentindo. Se alguém diz ao governo que o trabalhador está satisfeito, esse alguém está mentindo. É por isso que as autoridades deveriam dialogar com os dirigentes autênticos, porque não nos interessa enganar nem o governo nem as nossas bases.
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Folha de São Paulo, 24 de setembro de l978. Entrevista concedida a Getúlio Bittencourt
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4 comentários:

David Bor disse...

Pô Ju vc deveria ter me falado sobre este blog. Achei bárbaro!
Pena que a nossa imprensa, que seria a primeira a ser calada no dia em que o PT REALMENTE tomar o poder, não publique coisas como essas, algo como a seção "há 50 anos" do Globo.

Jurema Cappelletti disse...

David, se juntarmos todas as mentiras lulistas dá para para editar um livro mais grosso que o atual dicionário Aurélo.

Aguarda, só, a entrevista com a Xênia. Estou doida para colocar logo aqui, mas as entrevistas sairiam da ordem de data. Mas falta pouco. Eu resisto.

Ju

Lord disse...

Campanha Ficha Limpa organiza coletas
Ações integram esforço nacional de arrecadar 300 mil assinaturas em 30 dias. Ao longo do mês de agosto acontecerão várias coletas de assinaturas para a Campanha Ficha Limpa em diferentes cidades.
Colaborem com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. Organizada pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), a Campanha objetiva viabilizar o encaminhamento do Projeto de Lei de Iniciativa Popular sobre a Vida Pregressa dos Candidatos ao Congresso Nacional. Visitem o site http://www.mcce.org.br

Gabriel bueno disse...

O problema todo é que a imprensa recebe dinheiro do governo,por isso eles não batem na mesma tecla,como diz no perfil dela,o brasileiro sá sabe sair as ruas no carnaval e na parada gay,MUITO BOM BLOG. :)