quarta-feira, 28 de abril de 2010

Entrevista ao cineasta Renato Tapajós


22 de maio de l979






Lula concedeu esta entrevista no dia em que foi suspensa a intervenção no Sindicato de São Bernardo, 22 de maio de l979. Depois de fazer um rápido balanço do período de intervenção e da greve que o precedeu Lula explica por que, na assembléia do dia 13 do todas as pressões no sentido de ser iniciada uma nova greve, exortou os trabalhadores a aceitarem o acordo negociado com os patrões.
- Quais são as lições que tanto a diretoria como os trabalhadores aprenderam durante esses 60 dias de intervenção?
- Olha, eu acho que as lições foram tantas que é difícil a gente enumerá-las . Primeiro, nós aprendemos que intervenção não é o fim, não causa o fim da atividade sindical. Nós aprendemos que a intervenção, pelo menos em São Bernardo do Campo e Diadema, serviu de estimulo para os trabalhadores brigarem, serviu de estímulo para que os trabalhadores começassem a amar, a gostar de uma coisa que até então era pouco conhecida dos trabalhadores, que é o próprio sindicato. Eu acho que a intervenção, no fundo, ajudou os trabalhadores a brigarem por uma coisa pela qual até então a gente não acreditava que eles brigassem.
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- A visão que vocês têm do sindicalismo mudou alguma coisa nesse período?
- Mudou. Eu acho que a visão mudou porque nós precisamos entender que até então a gente tinha uma visão de sindicalismo dentro de uma sede, com assistência médica e de uma máquina montada, onde a gente se perdia no meio dos papéis. E nós percebemos com muita clareza que é possível fazer sindicalismo na porta de uma igreja, no fundo de uma igreja, no bar, numa esquina, numa praça. Às vezes até jogando palitinho numa praça a gente praticava o sindicalismo que deve ser praticado no Brasil.  
- Em relação à greve, deu para perceber realmente que ela é o único instrumento capaz de forçar os empregadores a cederem alguma coisa?
- Deu também pra gente ter certeza de que a greve é o único instrumento que a classe trabalhadora tem de se defender dos abusos dos empresário, dos abusos do próprio governo. Em(eu) acho que a greve, bem usada, é um instrumento infalível, é um instrumento que proporcionaria aos trabalhadores melhores dias, melhores salários, melhores condições de trabalho e melhor posição dentro da sociedade.
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- Mudou, nesse movimento todo, a sua visão de patrão e de governo?
- Outra coisa que ficou bem clara para mim é que não existe diferença entre patrão e governo. Ficou bem claro que, na hora de sugar a classe trabalhadora, patrão e governo se unem e a prova disso é que na mesa de negociações os empregadores falavam que não podiam dar mais aumento por quê o governo não permitia. Por outro lado, o governo, ao invés de desmentir isso, dizia que fossem dados mais 60% de aumento. Então ficou claro para nós, dirigentes sindicais e para a classe trabalhadora, que a nossa luta é contra uma coisa muito forte, uma coisa chamada governo e uma coisa chamada poder econômico, que, no fundo, são uma coisa só.
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- Você vê, então, patrões e governo como uma mesma classe e, do outro lado, a classe trabalhadora. Qual é o equilíbrio de forcas, como se deu esse equilíbrio de forças durante a greve?
- Eu acho que até o momento em que ocorreu a união patrões/governo, quando aumentou a repressão policial, até estavam um pouco na frente, os trabalhadores estavam até ganhando um pouco dos empregadores, na luta direta. Mas a partir do momento em que entrou o governo com a repressão policial, eu acho que houve um desequilíbrio, porque começaram a prender trabalhadores, começaram a bater em trabalhadores, e começaram a fazer com que alguns companheiros trabalhistas ficassem assustados, não que ficassem amedrontados, mas que ficassem assustados, pensando inclusive numa radicalização maior por parte da própria polícia.  Então eu acho que está provado que os trabalhadores, melhor organizados, combaterão a polícia, governo e a própria classe empresarial.

- Como foi a organização dos trabalhadores durante a greve?
- Olha, eu acho que a única coisa que a gente sentiu e que marcou muito a gente é que, quando houve a intervenção, com o afastamento da diretoria, eu esperava que tivesse nascido naturalmente um comando de greve; a gente percebeu que houve uma certa confusão, mas isso ocorreu porque os trabalhadores iriam demorar algum tempo para acreditar numa nova liderança, para acreditar numa nova palavra de ordem. Mas eu acho que a organização dos trabalhadores, se considerarmos que tivemos 15 anos praticamente mortos, 15 anos dormindo, eu acho que a organização foi praticamente perfeita.
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- Lula, como você vê a sua própria liderança?
- Eu nunca gostei de ser chamado de líder, eu nunca gostei que dissessem que eu tinha liderança sobre os trabalhadores. Eu acho que a grande virtude é que eu fui muito honesto com os trabalhadores durante todo o período. Eu acho que usei a honestidade até contra minha própria imagem. Eu gostaria apenas de ser chamado de dirigente sindical e nunca de líder. Ás vezes me causava muito medo quando no estádio me carregavam; um dia me procurou uma mãe de família, que estava grávida, e dizia que o maior orgulho dela era, se nascesse um homem, colocar o meu nome no filho. Outras pessoas queriam que eu assinasse meu nome no peito, na camisa, num papel ou coisa parecida. Isso me assustava muito, porque aumentava minha responsabilidade, e eu sabia que no dia em que não pudesse dar tudo aquilo que os trabalhadores queriam, eu poderia sair machucado da luta. E aconteceu exatamente no domingo, dia 13 de maio, quando os trabalhadores acreditavam que eu fosse decretar uma nova greve. Levado pelo bom senso, levado por minha experiência, levado até pelo fato de eu querer preservar a integridade física dos trabalhadores, eu pedi que não houvesse uma nova greve, e ai eu troquei a imagem de quase um pequeno deus pela imagem de um dirigente sindical responsável e consciente, não querendo, em instante algum, que a classe trabalhadora ficasse subordinada á imagem de um líder que, quem sabe, não era um verdadeiro líder, mas um teleguiado da categoria.
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- Lula, então como se explica que você não levou a categoria à greve? Por que você não pediu que fossem à greve, rejeitando o acordo?
- Eu não levei a categoria à greve por um fato muito simples. Primeiro, porque eu tinha sentido na pele o problema da intervenção no sindicato e os trabalhadores muito mais do que eu, sentiam o problema da intervenção no sindicato. Nos dois dias em que eu não tinha assumido a greve, os trabalhadores praticamente entraram no jogo da polícia, partiram pro confronto com a polícia e se isso historicamente pareça muito bonito, na prática tivemos inclusive trabalhadores com a perna quebrada. Quando eu cheguei no campo, os trabalhadores diziam para mim: “Lula, cuidado com a tua imagem. Você não deve desgastar tua imagem. Você tem a imagem de um líder, de um herói, e se você não levar os trabalhadores à greve, eles vão achar que você se acovardou, que você se vendeu”.
Eu preferi trocar tudo aquilo que eu tinha ganho levando os trabalhadores à greve, pelo bom senso. Eu preferi trocar tudo aquilo pensando na minha família, pensando na família dos trabalhadores, pensando num confronto, numa repressão maior e pensando numa coisa: nós não tínhamos mais local para reunião, nós não atínhamos mais estádio, porque a polícia iria invadi-lo, nós não tínhamos mais a sede do sindicato e, quem sabe, até não tivéssemos a praça, porque aquilo iria servir de desafio ao próprio governo. E eu acho que a luta não terminou ali, eu acho que a luta apenas parou ali, momentaneamente. Eu acredito que nós estamos preparados pra fazer greve quando bem entendermos que deve ser feita e eu não poderia jogar a classe trabalhadora numa luta que seria uma luta inglória. Se eu tivesse decretado a greve, quem sabe a greve tivesse durado uns dois dias e depois os trabalhadores viessem dizer para mim o seguinte:  “Lula, você não pensou e jogou a gente num confronto no qual a gente foi derrotado”.  E eu preferi mais uma vez apelar para o bom senso, apelar para aquilo que minha consciência pedia.  E tanto é verdade (É VISÍVEL A INTENÇÃO DE PROVAR QUE O MOTIVO DE RECUAR FOI ... PELO BEM DE TODOS, NÃO POR NECESSIDADA IMPOSTA PELA SITUAÇÃO ) que a maioria dos trabalhadores acatou a minha opinião e na hora da votação os trabalhadores estiveram comigo mais uma vez, me dando mais um voto de confiança. DÁ IMPÓRTÂNCIA A SEU VALOR, Q UANDO NÃO É ISSO QUE ESTÁ EM JOGO.
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- Você acha que aquela sua frase: “Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores, ainda tem sentido?
- Eu acho que tem. Eu acho que ninguém nunca mais deve duvidar dfa capacidade de luta da classe trabalhadores porque está provado que somente os trabalhadores poderão transformar essa sociedade de consumo em que vivemos numa sociedade mais justa, numa sociedade em que efetivamente haja distribuião de renda, numa sociedade em que efetivamente o trabalhador çpossas andar de cabeça erguida.

- Qual é a disposição dos trabalhadores hoje?
- A disposição dos trabalhadores hoje é a mesma de antes da greve, é a mesma que predominou durante a greve, durante os 45 dias em que nós vivemos nesse compasso de espera. Eu acho que os trabalhadores estão apenas esperando palavras de ordem e eu espero que a diretoria dê essas palavras de ordem, assim que retornar ao sindicato. Eu não vejo por que deve haver desânimo entre os trabalhadores. Eu vejo, isto sim, motivo para muito mais ânimo, motivo para que exista muito mais disposição de luta. Eu acredito piamente que aqueles trabalhadores que estão descontentes por não terem entrado em greve segunda-feira, dentro de alguns dias reconhecerão que foi correta a posição de não entrar em greve e eles estarão prontos a lutar quando o sindicato assim o quiser, quando o sindicato chamar, quando a categoria decidir.




18 comentários:

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com carinho
Hana

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