quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

ENTREVISTA À GAZETA MERCANTIL 5 abril l979




aaaaaaaaNesta entrevista publicada no dia 5 de abril de l979, durante a vigência da “trégua” de 45 dias aceita pelos trabalhadores, Lula fala principalmente do movimento em que se encontra envolvido.
aaaaaaaaComeçando pelas grandes lições que tira da greve, analisa os efeitos da intervenção sobre o comportamento dos trabalhadores, avalia as perdas e os ganhos das forças envolvidas no movimento e aborda as negociações diretas entre patrões e operários. Ao tratar desse assunto, aponta as diferenças entre as negociações de 1978 e 1979 e, sobretudo, mostra o despreparo e a falta de seriedade dos empresários.
aaaaaaaaSobre a vida política nacional, declara que  “o fechamento não resolveu nada”, examina a proposta de abertura do General Figueiredo, caracteriza a democracia que “precisa vir” e indica as razões por que não se comprometeu com o movimento pela anistia. Os empresários não escapam à sua análise. Lula mostra os pontos em que o empresariado nacional difere do estrangeiro no relacionamento com os trabalhadores, mas indica também o ponto em que, em certos momentos, os dois se nivelam.
aaaaaaaaÉ interessante notar que, nesta entrevista, nem ele mesmo escapa de sua visão crítica. E podemos ver aqui um perfil do Lula traçado por ele mesmo.


- Quais são as lições da recente greve do ABC ? Quem ganhou e quem perdeu com o movimento? O governo, os trabalhadores, os empresários? A intervenção teria sido uma forma de pressionar os trabalhadores para obter sua concordância com propostas anteriores, com a promessa de devolver o sindicato aos dirigentes eleitos? Qual o balanço que deve ser feito da paralisação?
- Eu acho que a primeira grande lição foi que, individualmente, ninguém acreditava que a gente tivesse capacidade  para fazer uma greve da forma que foi feita. 
Ninguém acreditava que agente pudesse colocar 89000, 90000 trabalhadores num campo de futebol todo santo dia, com sol ou com chuva.  Quando a gente se reunia no campo, percebia que ali unia a coragem de cada um e aquilo se transformava num gigante.   Individualmente, cada um tinha um cisma – a gente não poder fazer isso, não vai poder fazer aquilo -, mas quando unia todo mundo no campo a gente conseguia fazer até o impossível. A grande lição é que ninguém tem mais coragem para brigar do que a classe trabalhadora, só precisa alguém orientá-la  para brigar porque ela tem mais coragem do que qualquer outro setor da sociedade para brigar. Ela deu demonstração disso.
Naquela época as pessoas podiam se impressionar com o discurso  na base do  “ninguém acreditava que a gente (leia-se EU) fosse capaz”, dito  duas vezes seguidas só nesta  frase.   Passaram-se 33 anos e Luís Inácio repete a mesma coisa até hoje em diversas situações diferentes.  O ex-sindicalista sente necessidade de repetir que é capaz de fazer milagres.
Outra lição que eu aprendia também, é que é muito difícil você segurar uma greve por muito tempo se não tiver um fundo de greve. O trabalhador fica muito sufocado a partir de 10, 15, 20 dias parados, quando ele começa a vislumbrar o dia de pagamento e que ele não vai ter nada para receber. 
Em  outra etapa deste livro, em um dos discursos incitando os trabalhadores, veremos como Luís Inácio insiste em manter a greve, mesmo quando eles não suportam mais).
A princípio a idéia nossa era fazer greves programadas. Programar greve numa fábrica, parar uma dia, voltar a trabalhar, parar em outra. Mas não havia tempo de preparação da categoria como um todo. Mas eu acho que as próximas greves terão de ser greves já programadas. Por exemplo, hoje vai parar a Mercedes Bens. Pára um dia. Amanhã volta a trabalhar. Pára a Ford. Volta a trabalhar. Pára a Volkswagen. Volta a trabalhar. Pára a Villares. A idéia inicial era essa, mas depois a coisa foi caminhando...
Outra coisa: ficou provado, para mim, que com toda a repressão que houve de 1964 para cá, uma coisa nunca foi proibida: é o dirigente sindical ir para a porta das fábricas conversar com o trabalhador.
De acordo com suas palavras, nossa ditadura teve aspectos bem tolerantes.  Então, vamos comparar a ditadura militar, tão criticada pelo entrevistado, com o governo de Fidel e do pelego  Chaves, ambos elogiados por este falso defensor da democracia e da liberdade.
A grande lição que os dirigentes sindicais têm de aprender é que o sindicalismo brasileiro esteve morto, talvez nem seja culpa dos governos revolucionários, mas por culpa mesmo da passividade dos dirigentes sindicais que não quiseram assumir, pelo menos em termo de preparação de base.  Porque a lei de greve é a mesma de alguns anos atrás e o trabalhador está fazendo greve.   
Evidente a intenção  dissimulada de mostrar sua grandeza em relação à incapacidade dos outros sindicalistas.   Porém L.I.  “esquece”  ser bem mais fácil agir nesste período, no final da ditadura, embora procure negar a diferença entre uma época e outra.  Esperteza maliciosa que pode passar facilmente despercebida.
A partir das greves do ABC eu acho que começou uma nova era do sindicalismo brasileiro, uma era em que os trabalhadores brasileiros estão fazendo os dirigentes sindicais andarem  Não é mais o dirigente sindical que fica querendo dar ordem para a categoria, mas é a categoria que exige uma tomada de posição das lideranças sindicais. Mais uma vez usa a auto-promoção ao se referir, entre linhas, à sua atuação como líder. E vemos aí outra demonstração de esperteza maliciosa em forma de falsa humildade, ao atribuir o comando aos trabalhadores que foram usados como escada. 
Eu acredito que a classe trabalhadora brasileira ganhou.  Ganhou porque ela se descobriu para a luta. Ela começou a mostrar que faz parte do contexto político do país, que ela tem de participar (1).  Somente as pessoas que viram a participação dos trabalhadores podem imaginar a grandeza do movimento.  Eu não sei se o governo ganhou. No fundo, no fundo, eu acho que o governo perdeu com a intervenção no sindicato. Politicamente eu acho que o governo perdeu muito. Eu acho que os empresários perderam também porque tinha a questão fechada em termos de negociação coletiva e foram reabertas as negociações, fora os prejuízos que as empresas tiveram, o que ficou muito mais caro do que se tivesse dado os 11% de aumento. O grande ganhador de tudo isso foi o sindicalismo brasileiro.
Neste parágrafo L.I. procura atribuir à necessidade dos trabalhadores o SEU desejo pessoal de entrar para a política(1).  O trabalhador nunca teve  interesse por política.    Nunca sentiu desejo de salvar a pátria nem mesmo a classe de operários.  Deseja apenas emprego e salário.  Sempre que participou de alguma manifestação  foi induzido, aliciado, seduzido por um falastrão cheio de promessas mirabolantes.  
Não, não concordo (com a idéia de que o governo interveio para forçar a negociação), porque a gente não vai voltar a negociar com condições menos exigentes. O que eu acho que houve é que a intervenção, a nível de classe trabalhadora, também foi benéfica, porque aconteceu uma coisa muito estranha depois da intervenção: o trabalhador passou a ter amor pelo sindicato como ele tem pelo filho, como ele tem pela mulher.  Ele passou a entender que aquilo era dele e que o governo não tinha nenhum direito de tomar conta daquilo lá, coisa até então acho que nunca vista, em termos de Brasil . Mesmo com a intervenção, se o governo pensava acabar a greve, ela ficou sexta, sábado, segunda e terça. A greve acabou quando a gente entendeu que ela deveria terminar. Não acabar, mas pelo menos parar para uma recuperação, para se preparar outra vez para uma outra etapa. Eu espero que haja bom senso dos empregadores e que não voltemos a fazer greve. 
Seu conselho 'sapiente' aos empresários contém enorme mentira, pois L.I. jamais desejaria o fim das greves, pois foi às custa dela que se criou  e se projetou  junto aos jornalistas.     De novo usa o chavão cansativo em 33 anos de vida política  ao repetir  "coisa até então acho que nunca vista", que se repete mais abaixo neste mesmo 'discurso'.  Ao dizer que  o trabalhador passou a amar o sindicato como ao próprio filho, o repórter poderia lhe perguntar qual seu verdadeiro problema: ingenuiudade ou falsidade.  Após todos esses anos já  sabemos  qual  a resposta.   Quanto ao trecho  "aquilo era dele e que o governo não tinha nenhum direito de tomar", devemos guardar para futuramente lembrar o seu governo de que não pode tirar o que nos pertence. 
Pensaram que a intervenção ia acabar com a greve, mas ela foi um incentivador para a continuidade da greve.  A gente nem sempre discutia tudo nas assembléias, porque tinha muito policial e quem sabe alguns representantes de empregadores. Mas o que a gente tinha certeza era o seguinte: o trabalhador tinha recebido o adiantamento, então ia chegar o dia 1º e o trabalhador não ia ter nada para receber.  Eu acredito que ele agüentaria mais uns cinco dias de greve. Mas nós tínhamos de fazer uma análise mais política da coisa. Porque para mim, pessoalmente, e para a diretoria do sindicato a saída honrosa seria a gente lavar as mãos e pedir para o trabalhador retornar ao trabalho e ficar esperando que aos poucos eles fossem voltando, contra inclusive a palavra de ordem do sindicato. Como aconteceu em outras entidades, em que os trabalhadores fizeram greve e a os poucos foram voltando a trabalhar. Então a gente tinha interesse em parar com a greve no auge dela, quer dizer, com o campo cheio da forma que começou, porque os trabalhadores sairiam fortalecidos, sairiam confiantes neles mesmos, e hoje eu posso garantir para vocês que o clima dentro das fábricas é de confiança.   Não acredito que em outra época no Brasil houve um clima de confiança nele próprio como existe hoje dentro da fábrica. O trabalhador confia nele e sabe que deu prazo, tem confiança de que deu um prazo de 45 dias e que se até esse prazo não for resolvido ele está preparado para parar outra vez.



- Como seria possível caracterizar sua posição política? Em outras palavras, qual o tipo de organização social ideal, de seu ponto de vista como líder, para os trabalhadores? O que pensa, por exemplo, da co-gestão das empresas no Brasil? De modo mais geral, o que espera da abertura política atual? Como vê esse processo no que se refere aos trabalhadores?
- Acho que a luta que estamos travando demonstra o sistema político-econômico que perseguimos. Jamais iria dizer que sou um social-democrata, como jamais diria que me arvoro a socialista ou marxista. Penso que a luta quase a gente trava no dia-a-dia demonstra bem o que queremos em termos de sistema político e econômico.
A co-gestão faz parte da evolução, da luta da classe trabalhadora. Acho que a co-gestão nunca vai sair, por exemplo, com o sindicato pedindo ao patrão para participar da reunião da diretoria. Acho que ela sairá...

Eu acho que o fechamento não resolveu nada. Por isso, acho que a abertura poderá resolver muito mais do que a fórmula anterior, que foi o fechamento que houve. Acho que tem de abrir para poder melhorar, porque pior do que estava não podia haver. Acho que é necessário abrir para que todos possam dar opinião, possam discutir, todos possam gritar quando a coisa estiver errada, todos possam aplaudir quando estiver certa. O que não pode continuar é o destino do Brasil sendo determinado por meia dúzia de pessoas que nem têm uma visão de Brasil, ou nem sempre estão a serviço do próprio país.

Não acredito na que foi proposta por Figueiredo, o u proposta por quem quer que seja. Eu acredito numa abertura a partir do momento em que a sociedade começar a exigir essa abertura, começar a brigar para que haja essa abertura. Eu acho que essa abertura deverá vir – não lenta e gradual como querem -, mas de acordo com as exigências da sociedade. Pois se a gente ficar esperando, parado, nunca haverá essa abertura. Acho que não foi um gesto generoso a decisão de abrir, mas uma resposta, uma flexibilidade, em função das exigências da sociedade. 
Nada mais absurdo que desejar que o trabalhador  "participe das reuniões da diretoria de uma empresa". Até porque, como ele mesmo disse, ninguém poderá tirar do DONO DA FÁBRICA O QUE É APENAS  DELE , o poder de decidir.  Em seguida, fala sobre a necessidade de todos darem opinião, discutir, gritar quando a coisa estiver errada, o que é examente  contrário ao que faz hoje o seu governo : a CENSURA.

A classe trabalhadora tem de participar, exigir, brigar, senão se vier a democracia que a elite brasileira quer, sabe, vai acontecer a mesma democracia que já teve no Brasil antes de l964, na qual a gente continuava sendo espezinhado ganhando pouco, vivendo em favelas, coisas assim. Por isso temos de tomar cuidado para que quando empregarmos essa palavra (democracia) ela não fique apenas para uma classe de elite, mas que a democracia atenda aos interesses de todos os cidadãos brasileiros.
L.I critica a vida em favelas e comenta sobre a   democracia que não deve ser apenas da elite,  No entanto,   alegou que  seu hoje grande amigo da elite, José Ribamar (o Sarney)... não era um pessoa comum, .quando acusado de  trapaças.  Fora todas essas mancadas lulistas, que se repetem constantemente,  o vemos  separando a classe média da classe trabalhadora, quando todos eles trabalham.  A  diferença é o nível de estudo, que em sete anos de seu governo não mudou em nada.
Vamos pegar o período em que ouve (sic) mais abertura no Brasil, isto é, de l956 a l954. A classe média estava numa boa situação. E o trabalhador? Onde estava? O trabalhador era chamado de comunista do mesmo jeito, tomava bala, ia preso. Eu participei de uma greve em l963, com a mulher e tomamos tanta borrachada como agora na Revolução.  Isto aqui em São Paulo, na Vila Carioca.
Ai é que me preocupa a questão da democracia. Ela precisa vir, mas de forma que atinja a todos os setores da sociedade. E não aquela que delimita a sociedade e privilegia alguns setores. Dali pra baixo é pau na máquina, outra vez. Daí, o meu medo. E é por isso que eu tento abrir os olhos do trabalhador.O povo brasileiro só vai se preparar para a democracia, vivendo na democracia. Não é uma ditadura que o vai preparar para a democracia, certo? Não é o regime de exceção que vai fazer uma escolinha o mesmo um curso superior para ensinar o trabalhador a viver numa democracia.

Por exemplo, quando se fala em anistia – e muita gente me critica, porque eu caio de pau em cima desse papo como está colocado - , o que eu entendo é que muita gente pede isso para os presos e cassados nesses anos. E a classe trabalhadora, que foi a grande vítima da Revolução, por que não se pede anistia para ela?
MENTIRA, PRESEPADA.  Na época da revolução a maioria dos trabalhadores nem sabia DE nada, da mesma forma que hoje desconhece o que ocorre na patifaria nacional. 

 Quanto à questão do fundo de greve, que alguns empregadores consideram favorável a eles, acho até natural essa visão do empregador, por que eles sabem que se a gente não ganhar os dias a gente vai brigar para tirar deles. Para eles também é interessante que a gente tenha um fundo, para não brigar para receber os dias em que a gente fez greve. Daí dá para entender por que eles são favoráveis ao fundo de greve. 


 - Com o fracasso da primeira fase das negociações entre o ?Grupo 14 da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e os sindicatos de metalúrgicos do ABC, acredita que a própria idéia das negociações diretas estará prejudicada? Ou considera que apenas ouve uma condução deficiente por parte dos empresários ou dos metalúrgicos, excesso de radicalização ou despreparo de uma ou ambas as partes? Por outro lado, como vê a opinião de alguns empresários no sentido de que a existência de um de greve seria, na verdade , mais favorável a eles do que aos trabalhadores?
- Eu acho que a negociação direta é o caminho. A diferença do ano passado para este ao é que, no ano passado realmente, os empresários foram pegos de calça curta. A gente percebia com muita clareza, em várias reuniões de negociação, que a gente estava mais preparado para discutir uma contratação coletiva do que eles. Esse ano eles se prepararam, mas não se prepararam para negociar, e sim para radicalizar. Eles não se prepararam para discutir, se prepararam muito mais para reprimir os trabalhadores. Eu, que participei das negociações no ano passado e este ano, digo que o nível das do ano passado estava bem melhor, mesmo eles não sabendo, tendo menos prática até do que a gente, que tinha muito mais dados do que eles. Este ano eles se prepararam para reprimir. Vejam, por exemplo, as greves de São Paulo em novembro, quando aqueles boletins de orientação da própria Federação das Indústrias eram bem claros, a linha tinha de ser dura. A ponto de haver uma proposta de jogar os trabalhadores na rua para haver um confronto com o poder público, para que o poder público entrasse na coisa. Lá em São Bernardo, antes dessa greve, aconteceu uma série de greves nas quais a gente era obrigado a alugar ônibus e ir buscar os trabalhadores na porta da fábrica, para evitar que a polícia viesse e entrasse em ação contra os trabalhadores.
Eu não sei se é ser puritano demais, mas eu acho que quando eu quero uma coisa e eu vou pedir para você e você não quer me dar aquilo que eu estou pedindo, você tem de ter em mente o que você pode me oferecer. Eu que participei (é até ruim eu falar isso porque participei), disse isso várias vezes lá quando fiz uso da palavra nas negociações: eu acho que o pessoal que se reuniu para negociar estava brincando, não estava negociando. Era mais uma brincadeira. Entrava dia, saía dia, vinham as mesmas discussões, a mesma coisa, discutia-se a cor das cadeiras em que íamos sentar, o lado em que iam ficar os patrões, o lado em que iam ficar os empregados, discutia-se se ia começar de trás para a frente, começar pela reivindicação de número 22 ou se ia começar pela primeira. Era um troço assim. Se houvesse seriedade poderia ser resolvido em três reuniões. Porque foram feitas algumas coisas, e quando chegou na mesa de negociação – tendo já os patrões a nossa pauta desde a primeira reunião – vira-se um dirigente sindical e fala para um empregador: “Bom, mas nó0s já discuti9os isso no acordo”. E o empregador responde: “Mas esta é a primeira reunião oficial da FIESP”. Um troço muito mais à base da brincadeira do que sério. Até pode ter sido tática por parte dos empresários. Eu acho que esse negócio de encenação, de ficar discutindo muito no vazio é de quem não está muito a fim de resolver nenhum problema. Poderia ser muito mais objetivo. A gente, por exemplo, não tinha interesse de chegar à greve. A gente sabia, por parte de alguns empregadores , que eles chegariam aos números que chegaram na segunda-feira e eles sabiam que nós, de São Bernardo, não aceitávamos aqueles números.    

Além de  atribuir ignorância aos empresários, solta uma mentira escandalosa ao dizer que buscavam trabalhadores para que escapassem da violência policial.  Seu objetivo era facilitar a adesão do maior número possível de trabalhadores.  Além disso,  ele certamente se aproveitaria de qualquer violência policial para se promover, nem que fosse um simples peteleco.
Quando a gente fez a assembléia no sindicato, a gente fez questão de fazer uma pregação: os dias de greve não vão entrar na pauta de reivindicações, só entrarão em último caso, porque se a gente ganhar tudo o que está pedindo nós não vamos sequer pedir os dias de greve.  A gente colocava isso, exatamente para o trabalhador não ficar preocupado com os dias, porque senão aconteceria o seguinte: o trabalhador ficava dois dias em greve e diria: puxa, perdi dois dias, mais o domingo já são três”. Então a gente fez questão de pregar que numa briga a gente sai com a arranhão e quem sabe o arranhão nosso fosse os dias que a gente ia perder. Agora, a gente vai brigar pelos dias, porque não é brincadeira 15 dias no salário de um trabalhador, 120 horas que ele está perdendo e isto traz um saldo em termos de prejuízo muito grande para o trabalhador. Vamos brigar pelos dias, porque entendemos que a greve também se deveu à intransigência da classe empresarial. Se de um lado nós queríamos ganhar alguma coisa a mais, de outro lado os patrões não quiseram dar aquilo que a gente queria ganhar, nem fizeram uma contraposta pelo menos intermediária. Se fixaram no mínimo que eles poderiam dar e eu acho que houve mais radicalização deles do que nossa.

- Como líder sindical metalúrgico, como vê a presença do empresário nacional? Nestes últimos anos tem havido, a seu ver, uma evolução positiva do empresariado, do ponto de vista do relacionamento com os trabalhadores?
- Entrei em l969 como suplente de diretoria do sindicato. Nesses dez anos de vida sindical, apesar que de l969 a l975 eu não conversava como o empresários, acho que não houve muita evolução. Esses empresários que estão dizendo aí que são favoráveis a contratações coletivas de trabalho, esse pessoal está falando isso desde l973/74, só que na hora de abrir mesmo, ninguém quer abrir. Também esse pessoal fica muito na base da teoria, porque a exploração deles e a mesma do capital multinacional, é a mesma do empresário radical, pagam o mesmo salário, mandam embora o trabalhador da mesma forma, suspendem o trabalhador da mesma forma. O que existe é que, teoricamente, existem alguns empresário melhores do que outros.
Existem alguns empresários que têm uma postura melhor do que outros, que têm mais bom senso, até pela responsabilidade que têm. Você não pode comparar um Bardella a esse pessoal que a gente chama de pau mandado, que é pessoal subordinado, testa-de-ferro das multinacionais, que representam. Porque quando um Bardella está falando, ele fala como dono de uma coisa, a fábrica é dele, então ele fala como dono. Eu acho que a diferença que existe é basicamente essa; existem alguns dirigentes empresariais que têm assim mais decência, (2) que têm uma melhor postura do que outros para discutir, que têm um pouco mais de responsabilidade do que outros.   Agora, no fundo, no fundo, quando se trata de defender os seus lucros, aí a coisa nivela , nacionais e estrangeiras, tranquilamente (3). Mesmo porque os salários nas empresas nacionais são piores do que nas estrangeiras. A gente poderia até achar que eles estão sendo sufocados, mas eu acho que não. As empresas nacionais teriam de pagar mais, porque não são as outras que estão pagando muito, não, estão pagando pouco; elas é que estão pagando menos ainda. Se você chegar para um trabalhador comum e perguntar se ele prefere trabalhar numa empresa nacional ou numa Mercedes, numa Volks, numa F, em outra qualquer, ele vai preferir trabalhar na multinacional, que lhe dá melhores condições de trabalho.
Você percebe em alguns empresários nacionais que eles têm pelo menos um senso de honestidade muito maior do que outros. Com eles nós temos um relacionamento melhor do que com os das multinacionais, mas nós temos de brigar com eles da mesma forma com que nós brigamos com a Volkswagen, com a Mercedes. Mas, tranqüilamente é uma relação mais moderna entre capital e trabalho.

- Anuncia-se, para o próximo dia 1º de maio, um novo pacote sobre legislação trabalhista e sindical. Quais são as propostas que apresentaria para a reformulação que estaria sendo preparada?
- A reformulação na legislação sindical brasileira não pode ser decidida em função do 1º de maio. Acredito que para se fazer algo bem feito deve ser coisa para discutir em mais tempo, com participação dos dirigentes sindicais. Sair uma coisa imediata, feita por técnicos, entendo que a tendência é uma lei que continuará não atendendo aos interesses dos trabalhadores. Acho que, se o ministro do Trabalho pretende uma coisa bem feita, terá de chamar os sindicatos, suas assessorias e discutir a questão, antes de enviar um projeto ao Congresso Nacional. Do contrário, ficará remendando, remendando, e nunca atendendo aos interesses dos trabalhadores. Todos os anais de congressos de trabalhadores têm uma série de sugestões, de onde pode nascer, inclusive, um novo projeto para a CLT.    Todo dirigente sindical tem um projeto na cabeça para a estrutura sindical, todo trabalhador tem um projetinho na cabeça, todo advogado tem um projetão, todo mundo tem alguma coisa na cabeça sobre aquilo que quer. É difícil dizer aqui o projeto que tenho para modificação da estrutura sindical brasileira, do delegado sindical, de uma negociação coletiva. 
Um tempo depois, L.I. se elege deputado federal pelo PT, sem ter apresentado um projeto sequer. Por esta razão, diversas de suas biografias se referem a seu mandato de forma bem concisa, dizendo apenas o número de votos e ano de mandato. SÓ ISSO, POIS NÃO HÁ NADA A COMENTAR! 
O que eu tenho certeza é que do jeito que está naão pode continuar e, para melhorar, o movimento sindical tem de participar das discussões para fazer uma novas legislação, para fazer uma nova Lei de Greve. Não pode ser um negócio feito apenas por técnicos, como sempre foi feito aqui no Brasil. Tem de participar e tem de respeitar as peculiaridades de cada região.  Agora, a gente já tem como definição de um congresso nosso em l974. Em termos de legislação trabalhista, acho que deveria existir uma lei básica, onde se definissem alguns princípios, como jornada de trabalho, férias, a nível de Brasil, e se abrisse o campo para que cada um brigasse para conseguir algo mais de acordo com a produtividade que você dá, a rentabilidade que a empresa tiver. 
Se L.I. achava que as empresas deveriam dividir com os empregados determinada quantia pela produtividade, gostaria de saber como seria a divisão em caso de prejuízos.
Do ponto de vista da estrutura sindical brasileira, eu acho que o sindicato deve ser totalmente desvinculado do Ministério do Trabalho – totalmente. Deveria encontrar-se uma forma de acabar com o imposto sindical e é lógico que, desvinculado do Ministério do Trabalho, poderia até criar-se um novo tipo de imposto mas um novo tipo de imposto a partir da consciência do trabalhador e não como uma imposição do governo.
Quanto ao numero de representantes do sindicato, eu acho que ele deveria ter um membro, um delegado sindical em cada setor da empresa. Onde tivesse um líder representando a empresa, teria um líder representando os trabalhadores. Porque a empresa é dona do capital, é dona das maquinas dela, mas ela não é dona do trabalhador. Por exemplo, tem aqui dez jornalistas, tem um aqui que é representante da empresa, teria de ter também um representante do sindicato, para poder estar vigilante,  etc.  
Não se pode dar, aos sindicatos,  o direito de vigiar empresas.   Vigilância demonstra autoritarismo, invasão de um espaço que tem dono.
Em relação a uma central sindical, sou favorável, desde que seja mudada a estrutura sindical, pois, com a estrutura atual, acho que seria apenas criar mais um cabide de emprego.  Seu governo empaturrou, de sindicalistas, todos os órgãos federais.  Agora, mudando a estrutura, eu acho importante que tenhamos uma central única dos trabalhadores, que possa determinar uma luta a nível nacional, sempre respeitando a necessidade de cada categoria sindical. Por exemplo, temos no momento a união de um grupo de dirigentes sindicais para discutir uma luta pelo salário mínimo unificado a nível nacional e a garantia do emprego. Mas, se tivéssemos um a central única dos trabalhadores, essa luta poderia, com muito mais facilidades, ser levada em todo o Brasil. Na sua ausência, ela fica a cargo de meia dúzia de abnegados que vão ter de correr por aí, às vezes nem sendo recebidos por autoridades, encontrando dificuldades, etc. Por isso, acho que é uma necessidade para mover o meio sindical brasileiro.

Por outro lado, parece-me que a própria fórmula da política salarial que está na CLT não é assim tão má, não, se houvesse honestidade na aplicação. Ela prevê, por exemplo, participação na produtividade das empresas e uma série de coisas outras. Mas acontece que os números são mentirosos, são falsificados. Não houve sequer a aplicação da produtividade, em anos como l974, quando o Produto Interno Bruto cresceu 11 a 12% . E sobre os salários são aplicados 3% ou 4% . Escolheram um número lá como taxa de produtividade, que ficou até hoje.

- Fala-se muito em infiltração política no movimento grevista do AGBC. Várias vezes foram eitas acusações, até mesmo contraditórias, em particular à sua vinculação, seja ao PCB, seja à CIA ou ao próprio governo. Como se posiciona diante dessas acusações? Por outro lado, como sente a responsabilidade como sente a responsabilidade cada vez maior que tem diante da sua transformação em personalidade nacional? E as demais lideranças sindicais, por que não têm tanta ressonância?
- O que mais orientou o comportamento da diretoria do Sindicato de São Bernardo foi a própria experiência que vivemos como trabalhadores e como explorados.  
L.I., que deixou de trabalhar aos 27 aninhos de idade, não deveria se incluir na categoria de trabalhadores e, muito menos de explorados (leiam o artigo de Ipojuca Pontes;  "... o futuro líder sindical, depois de pedir ao patrão para fazer algumas horas extras na oficina, enfia o dinheiro pago no bolso e, fugindo do trabalho, manda o patrão "tomar no..." (na íntegra: http://www.midiasemmascara.org/artigos/governo-do-pt/10725-o-fracasso-do-filme-de-lula.html ). 
Por isso, talvez nossa forma de luta não tenha paralelo com nenhum pensador. O nosso negócio é a prática mesmo. Se vocês forem a São Bernardo e conversarem com 100 trabalhadores, perceberão que o pensamento deles é o mesmo, a forma de lutar é a mesma, porque cada um vem para o sindicato com a sua vida prática de trabalhador. E em nome dessa vida prática é que ele propõe sua atuação.
Acho que o Sindicato de São Bernardo é um dos poucos no Brasil que nunca aceitou qualquer curso dado pelo sindicalismo americano ou alemão. A gente recusou convite para viagem à Itália, para a Alemanha e para os Estados Unidos, e temos recusado uma série de ofertas. Fiz uma única viagem, uma vez, para o Japão, para participar de um congresso da Toyota.
Já disseram que eu era do Partido Comunista, que eu era isso ou aquilo. O importante é que, à medida que eles vão dizendo, a gente vai sabendo das coisas. O importante é que os trabalhadores do Sindicato de São Bernardo, mesmo sem Lula, sabem o que querem – e se não vier o aumento que esperam vão fazer greve.
Eu acho que tem de haver uma preocupação do governo, mesmo por uma questão de inteligência – e aí não vai nenhuma vaidade pessoal.  Mas é que, lidando comigo, qualquer pessoa de bom senso sabe com quem está lidando. Sabem que eu sou intransigente, sabem que não aceito que se discuta ideologias na apreciação de uma pauta de reivindicações dos trabalhadores e sabem que não falo escondido, em recinto fechado, que só falo publicamente. E acho que é mais fácil lidar com uma pessoas assim, porque sabem com quem estão lidando.  
Eu fico preocupado com o fato de que, a cada dia que passa, pela falta de mais gente falando e gritando, eu apareça muito.  Isso faz aumentar a responsabilidade da gente.
Acho que não sou isso que os trabalhadores acham que sou, e entendo que a falta de liderança no país levou a que eles passassem a endeusar, talvez, uma pessoa que não merecia ser endeusada. Então, isso me dá certo medo, porque, a cada dia que passa, aumenta muito mais a minha responsabilidade. E pode ser que chegue um dia – caso não apareça muita gente para ajudar nisso - em que possamos até cair no vazio. Eu só tenho a certeza de que vou continuar gritando, aos quatro cantos do mundo, uma liberdade para a classe trabalhadora.  
Neste trecho está o já conhecido   L.I. que dissimula sua vaidade doentia e vemos também o seu método da repetição, usado incansavelmente para divulgar seu endeusamento, ainda não tão conhecido.
Em São Bernardo, a gente tem hoje a primeira geração de operário industrial. São os filhos ou os netos daquele pessoal da roça, do Nordeste, que veio para cá trabalhar de ajudante ou coisa parecida. O filho é ferramenteiro, já é torneiro, é fresador. O neto já não quer trabalhar o eito, subordinar-se às mesmas condições de trabalho a que o avô se sujeitou. Então, é um pessoal novo e mais exigente. Cerca de 70% dos trabalhadores de São Bernardo têm menos de 35 anos de idade. São pessoas que, praticamente, não viveram o movimento sindical antes de l963, pessoas que estão muito comprometidas com uma luta que é atual.
O que está existindo lá no ABC, principalmente em São Bernardo, é uma massa jovem de trabalhadores, pessoas que não aceitam esse tipo de exploração, que querem participar da vida política do país, que não viveram o populismo de Getúlio Vargas. São pessoas que começaram a acreditar nelas mesmas. Acreditam que é na participação dos trabalhadores que poderão resolver seus próprios problemas. E é isso eu tem ajudado tanto os trabalhadores na evolução do Sindicato de São Bernardo, a participação e as exigências da categoria.
Eu, que vivi o momento sindical de l964, acho que hoje há muito liderança novas. Você pega o João Paulo, dos metalúrgicos de Monlevade, o Ronaldo, dos petroleiros do Rio, e outros. Acho que o nível é bom, o que entendo pé que antes não existia muita gente boa não. O quadro estás melhorando agora. São quadros de dirigente sindicais que não tiveram nenhum compromisso com o sindicalismo de Antes de l964, pois surgiram mesmo a partir de l969.

- E agora, qual a perspectiva para as negociações? Será possível chegar a um acordo? Ou pelo contrário, voltaremos ao impasse? Como é entendida pelos trabalhadores a posição do ministro do Trabalho, Murilo Macedo, que deverá impor uma solução, se não houver acordo? As diretorias afastadas contam com a volta?
- Se o ministro do Trabalho vier a impor o que os trabalhadores estão pedindo será bom; se impuser o que os empresários estão querendo dar, será ruim para os trabalhadores . Vamos pegar o Tribunal Regional do Trabalho como exemplo. Nós havíamos recusado a proposta patronal de 57% e 63%. O Tribunal, em nome da Justiça,a nos dá 44%, e quer que obedeçamos. Somente num país das maravilhas isso poderia acontecer. Todo cidadão de bom senso saberia de cara que os trabalhadores não iriam acatar a decisão do Tribunal, voltando ao trabalha nessas condições. Aí não resolve questões de legalidade ou ilegalidade. Ora, se havíamos recusado 63%, iríamos ficar com 44%\ de mão beijada, só porque o Tribunal decretou isso? Ai deverá prevalecer o bom senso.
Eu acredito que haverá devolução dos sindicatos às suas diretorias. Não sei qual será o dia, nem a hora, mas haverá.
Por que voltamos ao trabalho?  Vejam?  Com as diretorias dos sindicatos afastadas, e apesar da disposição dos trabalhadores, o fato é que o movimento ficou muito disperso. Voltamos e assumimos o comando da greve sem nenhum direito de reassumir; Vocês não sabem a luta que foi abrir o portão do estádio da Viola Euclides. Ele foi aberto na terça-feira (dia 27), às 13 horas, depois de uma conversa com alguns empresários, quando a tentativa era reabrir as negociações que foram reabertas.
Tem de haver o acordo, porque, do contrário, o pessoal vai para a greve de novo. Mas há um caso sério nesse acordo.  A briga – e espero que se entenda de uma vez por todas, - é a seguinte: nós não queremos nada mais nada menos que o acordo que acordo que os empresários propuseram. Nós não queremos mais que 57%, não queremos nem os 63% que ofereceram. Nós queremos só os 57%, mas não admitimos que se desconte os 11 que nós ganhamos em maio. Temos 90% da categoria que ganhou esse aumento (11%) em maio passado. Mas vejam, os patrões querem nos dar 59,8% e nós não aceitamos. Essa é a informação que tenho – e acho ótima a proposta, desde que não de desconte os 11% .
Dentre outras características do sindicalista, aqui se evidencia sua pretensão e grosseria ao dizer espero que se entende DE UMA VEZ POR TODAS , e NÃO ADMITIMOS.  Nesta data L.I. já se considera o dono da verdade, cujas exigências não poderão ser recusadas.

Luís Inácio comete atualmente um erro imperdoável. Cuidar apenas dos operários  (ou trabalhadores, como são chamados por ele) é função de um sindicalista.   Mas cabe ao presidente de um país muito mais que isso, pois sua obrigação é aender às necessidades de todos os brasileiros.   Além disso seu dever não  é cuidar de ninguém, mas lhe oferecer condições para que possa cuidar de si próprio.  

L.I. foi eleito presidente, mas continua um mero sindicalista.



domingo, 8 de novembro de 2009

ENTREVISTA ao jornal 'Movimento'





Quatro dias depois da intervenção nos sindicatos do ABC, os metalúrgicos, reunidos em assembléia, votaram pelo retorno ao trabalho por um prazo de 45 dias.

Durante esse período as negociações entre patrões e operários deveriam continuar e, ao final, caso as reivindicações dos trabalhadores não fossem atendidas de forma satisfatória, novamente a greve seria decretada.

Foi durante esse período que Lula concedeu esta entrevista. Nela, diz em que se baseava para afirmar, com convicção, que as reivindicações dos trabalhadores seriam atendidas e por que tinha certeza absoluta na volta da diretoria afastada. Analisa a evolução do movimento diante dos fatos que ocorreram entre as assembléias do dia 22 e do dia 27 de março e explica porque, em dado momento, a coordenação da greve deixou de dar ênfase à reivindicação do delegado sindical. Mostra também o que ocorreu com o movimento logo após a intervenção e fala do fundo de greve.



- Ao propor ao pessoal que voltasse ao trabalho e ao dizer que tinha certeza de que as reivindicações serão atendidas, você estava se baseando em compromissos concretos assumidos pelo ministro do Trabalho e pelos empresário?   Os dirigentes da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) estão dizendo que não assumiram nada.  - Eu não falei aquilo em atermos de ministro, nem em termos de FIESP. Eu falei aquilo em termos de luta da classe trabalhadora. Falei pensando que os trabalhadores vão conseguir isso porque nos temos condições de conseguir. Basta que sentemos novamente numa mesa de negociações e vamos ver se os caras vão pagar pra ver outra vez.




- O que você acha das notícias de que as empresas estão dispensando muita gente e que não estão pagando os dias parados?  - A minha impressão é que parece que não houve a informação a todas as empresas. Conversei com o Dr. Maurício (advogado dos sindicato) para ele entrar em contato com todas as empresas, com a a FIESP, com o ministro do Trabalho, para resolver esse problema. Para nós, o que interessa é que os trabalhadores sejam readmitidos nas indústrias.




- Os empresários sempre se comprometem a não dispensar ninguém, mas no final de algum tempo acabam dispensando as lideranças mais conhecidas, tal como aconteceu nas greves anteriores. Que tipo de arma vocês têm para conter essa dispensa ?  - Eu acho que só existe uma arma. Se os empresários continuarem mandando gente embora, o que temos que fazer é parar outra vez. Eu acho que a principal coisa e a normalização do sindicato, para os operários poderem usar seu instrumento legal. TA: OS EMPRESÁRIOS dispensavam AS LIDERANÇAS MAIS CONHECIDAS, por que, ao ivés  talhar, eles usavam o tempo de serviço aliciando operários para greve.)
- Você acha que há uma real possibilidade de você, da sua diretoria, voltarem para o sindicato?  - Eu tenho certeza absoluta disso.


- É uma certeza pessoal?   - É uma certeza pessoal baseada em alguns dados concretos. Eu não tenho dúvidas de que se não houver essa volta dentro de um determinado tempo, os trabalhadores pararão novamente para exigir a volta da diretoria. E é lógico que há pessoas negociando a volta.


- Qual a diferença entre a situação do dia 22, quando se propôs a continuidade da greve, e a do dia 27, data da última assembléia, quando se resolveu voltar ao trabalho ?  Você acha que os trabalhadores dariam um passo atrás se tivessem decidido parar a greve dia 22 ?    - Entre as duas assembléias aconteceram mil e uma coisas, a situação não era a mesma. Quem disser que era a mesma coisa é porque não enxergou o que aconteceu depois daquela nossa recusa, com o fato culminante da intervenção no sindicato. O fim da intervenção passou, então, a ser a maior reivindicação dos trabalhadores. Outra coisa que aconteceu é que naquele outro acordo, eles queriam que os dias de greve fossem descontados parceladamente e agora os dias vão ser pagos, enquanto se negocia se vai haver ou não o desconto.


A sua opinião é que os dias de greve não vão ser descontados ?  - Eu acho que a possibilidade é essa e a gente já começa a negociar outra vez. Para mim, a coisa está na estaca zero. A gente vai começar tudo outra vez.


- Mas é uma situação mais favorável do que antes da intervenção?  A greve foi uma coisa muito dinâmica e parece que as reivindicações foram modificando sua importância na medida em que a greve se desenvolvia. Na última assembléia, não se falou na reivindicação que pedia estabilidade para os delegados sindicais que, segundo os patrões, foi o que originou a greve.  - Esta é a teoria dos patrões. Eles usaram muito bem isso. O trabalhador não ia fazer greve só por causa do delegado sindical. Os patrões tentaram usar o delegado sindical, que é uma coisa não muito conhecida dos trabalhadores, como motivo da greve, exatamente para desarticular a greve.

- Como é que você encara então o problema do delegado sindical?  - Da mesma forma como encarávamos antes da greve, antes da intervenção. Eu tenho consciência de que o delegado sindical é a coisa mais importante, ao nível do sindicato. Ao nível da categoria, não é.

- O presidente da Volkswagem , durante a greve, acusou o movimento de estar sendo manipulado por uma minoria, e disse que na Alemanha, para se decidir uma greve, é necessário que haja uma votação de dois terços dos associados.  - Eu acho que a pequena minoria a que ele quer se referir é a seguinte: a minoria de 100.000 trabalhadores em greve (são manipulados, não decidem) levados. Aqui no Brasil, os estatutos também falam em votação. Mas a democracia que nós seguimos no Estádio da Vila Euclides é muito melhor do que a que está na lei.

Após a intervenção no sindicato, a greve continuou, mas houve uma desorganização muito grande.  Vocês esperavam isso?  A greve foi muito abalalda com a intervenção?    A partir da intervenção, o trabalhador ficou órfão de pai e mãe, ficou fazendo as coisas mais pela rua, cada um ficou fazendo o que tinha em sua cabeça. Não havia lugar para encontro, para reunião, para nada. Aquela assembléia de sábado, que tomou posição extraordinária, foi uma das assembléias mais desorganizadas. Saiu pancadaria, todo mundo correu. Em função disso, no domingo, a gente assumiu a coisa.


- Mas vocês não achavam que a greve seria muito difícil com a intervenção no sindicato?   - Estávamos tranqüilos que ia ser difícil (ATO FALHO ?). O que a gente tem que olhar é o seguinte: é que existe uma diretoria que vinha fazendo um trabalhão há muito tempo e que em cima dela é que estava calcado tudo aquilo que aconteceu. Desde o momento e que a diretoria saiu da jogada, não seria a comissão de salário que iria conseguir articular uma assembléia de 80 000 trabalhadores . Se fosse uma assembléia de 100 trabalhadores tudo bem. Mas era uma assembléia de quase toda a categoria, então tinha que ter pessoas mais conhecidas, para poder rearticular a coisa . Foi em função disso que eu assumi o comando da greve no domingo, para não deixar que ela descambasse. Porque aí os aproveitadores começaram a aparecer aos montes.

- Vocês levantam há muito tempo a bandeira da autonomia sindical. Conhecendo a legislação trabalhista e o direito que ela dá ao governo de chegar no meio de uma greve dessas e tomar o sindicato, vocês não acham que foi um risco grande essa greve estar calcada cem por cento no trabalho da diretoria?   - Mesmo com a intervenção, a gente passou a se convocar para a assembléia sem boletim. Passou sexta, sábado, domingo, segunda e, na terça-feira, fizemos uma assembléia com 70 000 trabalhadores.

- Mas parece que houve um período de vácuo após a intervenção.   - Houve um período de vácuo, mas não de volta ao trabalho. Houve um período de não participação porque não havia nada convocado.

- Na medida em que o pessoal soube que você voltou, a situação ficou mais tranqüila.  - É, a preocupação do pessoal era saber onde eu estava, se eu estava preso. Quando percebi que isso podia atrapalhar o movimento, então resolvi voltar, inclusive colocando o pescoço na guilhotina, porque aí eu estava cassado e não era fácil voltar e assumir o comando da greve.


- Vocês estavam acompanhando as dificuldades das empresas pra ver quem tinha maior poder de resistência?  - A gente sabia que as coisas não estavam bem para eles, mas eu acho que os patrões têm maior poder de resistência do que a gente. Uma empresa como a Volkswagen, ou como a Ford, agüenta um mês de greve. Eles agüentam porque recebem subsídio do governo, financiamento. Mas nós não temos nada. A partir de um determinado dia o trabalhador começa a medir o tempo que está parado. Ele já começa a pensar: dia 10, o que é que eu vou receber Se a gente tivesse um fundo de greve, tudo bem, mas a gente ainda não tem. Por isso chega um determinado momento em que a gente tem que saber a hora certa de parar, para a categoria não começar a afundar.


- O que você teria a dizer para o pessoal que, no Brasil inteiro, se mobilizou em apoio à greve do ABC?  - Eu acho que esse pessoal precisa continuar se mobilizando, porque o fundo de greve não é uma coisa criada apenas durante a greve. Tem que ser um fundo que sirva para ajudar os sindicatos que fazem greve, um fundo para atender cada emergência. Amanhã, se um sindicato lá em Pernambuco entrar em greve, ou lá em Alagoas, tem que existir um fundo preparado para ajudar esse pessoal.

- Você disse, na última assembléia, que iria atender os trabalhadores na Matriz de São Bernardo. Então, o Sindicato vai funcionar lá?   - Não, o sindicato está funcionando na rua João Basso. Mas a diretoria que foi cassada vai continuar conversando com os trabalhadores na Matriz de São Bernardo.



Movimento, 2 a 4 de abril de l979.
Entrevista concedida a Tânia Angarini e Marcos Gomes




Informações sobre o Jornal Movimenmto




quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ENTREVISTA com Xênia Bier – Revista Especial


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Nesta entrevista Lula aborda problemas muito diversos, mas que mantêm entre si uma profunda relação: a situação da classe trabalhadora, que procura meios de se organizar e lutar por seus direitos. Provocado por questões às vezes agressivas, mas sempre inteligentes, Lula fala de seu ideal de fazer ‘política decente’, de sua visão da classe média – volúvel e por vezes pretensiosa, que “come mortadela arrotando peru” -, de sua esperança de que a classe trabalhadora possa agir “pelos seus próprios pés e pela sua própria cabeça, das multinacionais “que se sentem donas do Brasil”, do socialismo necessário “que está na cabeça do trabalhador”, etc.

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- Lula, você enfrentaria hoje os seus companheiros que discordam de você com a mesma coragem que enfrenta os patrões ?
- Tranqüilamente. Eu não me acho no direito, sabe, de agradar a todo mundo. O importante é aprender a conviver com as pessoas que discordam da gente. Agora, se eu tiver que levar uma proposta aos meus companheiros, mesmo sabendo que discordo, levo da mesma forma que sempre me veio, sem voltar atrás um milímetro sequer das posições que entendo são as justas. Acho que a minha posição, hoje, não permite atender muito a interesses pessoais. Hoje teria, como sempre tive, condições de levar as propostas, as discussões que eu entendesse que eram as boas para classe.

 - Olha, eu não sou metalúrgica, mas já fui operária. Eu faço questão de guardar dentro de mim a operária, senão me perco nessa coisa toda ilusória que está por aí, por eu estou na televisão mas continuo sendo uma pessoa que não se deslumbrou pelo status da televisão. Então eu te segui com muito amor e, de repente, estou um pouco triste com você, principalmente por esse envolvimento político. Eu me sinto traída e acho que muitos se sentem traídos também... Fundar um partido, entrar para a política, o trabalhador não deve entender isso como uma traição? Você não está passando para o" lado de lá"?
- Foi a necessidade de participação política dos trabalhadores que me levou a essa posição. Até o ano passado fui a pessoa mais apolítica que existe nesse país. Veja que ninguém mais do que eu comentou a corrupção, o modo de fazer política no Brasil. Entretanto, eu acho que estou pagando e vou pagar um preço pelo puritanismo com que eu defendi minha categoria. Até um determinado momento eu achava que nós não deveríamos participar em nada que viesse tirar os trabalhadores desse puritanismo; mas, depois de fazer um dos mais belos movimentos da classe trabalhadora que já se fez neste país, a gente percebeu que a classe política não estava sensível aos nossos problemas, que os partidos políticos não tinham tomado uma posição em relação à greve, nem tinham se manifestado em relação a nenhum grande problema nacional que nós enfrentamos durante os anos de arbítrio. Então cheguei à conclusão de que a classe trabalhadora não poderia pura e simplesmente chegar na época das eleições e dar seu voto às pessoas que se fantasiam de trabalhadores para pedir seu voto, oferecendo, às vezes, favores. Daí porque eu entendi que os trabalhadores precisavam se organizar politicamente. Para mim tá claro que a classe trabalhadora foi, e é ainda hoje, a que pagou por todos os erros dos governantes e das ostentações políticas deste país.

- Mas lula, não foi só a classe trabalhadora que sofreu...
- Mas nem passa pela nossa cabeça a idéia de que a sociedade só tem a gente, que só nós temos problemas. O governo conseguiu levar muita gente que não é trabalhadora de macacão para uma verdadeira proletização. Nós hoje vemos, em estado de miséria, algumas categorias que há cinco anos atrás poderiam ser consideradas de elite. Pega, por exemplo, bancários, profissionais liberais, professores, advogados que hoje se formam e vão ser vendedores ou coisa parecida. Daí a gente está tentando fazer um partido de massa, o partido das pessoas que direta ou indiretamente deve se subordinar ao regime de salário, como é o teu caso na televisão, como é o caso de outros artistas da televisão, que, mesmo parecendo que não são pessoas no nosso meio, ganham 8 a 10.000 cruzeiros por mês.

- Pode ter certeza que é a maioria.
- O conceito que até então a gente percebia era: é jornalista, é rico; é artista, é rico. E a gente, convivendo com eles, viu que afinal viviam tão desgraçadamente quanto nós. No meio artístico, por exemplo, nem todo o mundo é Francisco Cuoco, Tarcísio Meira ou Regina Duarte; a grande maioria vive em verdadeiro estado de miséria, ganhando até às vezes menos do que ganha um metalúrgico. E existem em nossa categoria pessoas que ganham 80 a 100.000 cruzeiros por mês e que não tem nada a ver com o grosso. Daí eu acho que se há frustração com a minha participação política da parte de setores de trabalhadores, há também outros setores que acham que eu deveria ter entrado na política há muito tempo. Nós precisamos provar ao Brasil e ao povo brasileiro que é possível fazer política decente no país.

- Você não acha isso muito romântico, não?
- Eu acho, como também as pessoas acharam romântico fazer uma greve em 78; como também as pessoas acharam romântico colocar 90.000 pessoas num campo de futebol a não ser um jogo do Corinthians e do Flamengo.

- Dizem que você será candidato a senador. Você acha que vai conseguir manter essa posição lá em cima, quando a gente também sabe que a política é a arte de enganar o próximo? - A gente vai mudar esse conceito através de nossa prática.- Aí volto outra vez ao seu romantismo.
- Mas nós vamos mudar. Eu acredito nisso! Diziam que fazer sindicalismo era o símbolo do peleguismo e alguns dirigentes sindicais deram demonstração de que não era preciso ser pelego para ser dirigente sindical, de que não era necessário andar de braço dado com patrão ou debaixo do sovaco do governo, de que é possível ser independente e fazer as coisas corretamente. Eu acho que na política a gente pode fazer isso. Agora uma outra coisa engraçada é que várias pessoas estão me lançando candidato a senador sem a minha procuração. Eu não sou candidato a coisíssima nenhuma.

- Eu vou te cobrar isso, heim?
- Eu sou candidato pura e simplesmente a tentar organizar politicamente a classe trabalhadora.

- Quando você unia todo o teu pessoal, você gritava alto e bom: "Este é um problema nosso, nós entendemos disso." e era uma coisa que eu gostava muito. Eu te chamava de intelectual orgânico por que você entendia profundamente tua classe, o meio de onde veio. Você dizia: "eu não vou admitir que ninguém venha fazer média em cima do nosso movimento”. No entanto, hoje você permite. Até a esquerda radical está envolvida com o PT.
- Não, eu acho que as duas coisas não se misturam. Mas os conceitos da gente vão mudando. Quando eu não tinha filho, eu morava com um irmão meu, o meu sobrinho era muito respondão. Eu achava muito ruim uma criança respondona, eu não admitia como é que um pai não metia a mão na orelha do moleque quando ele respondia para o mais velho. Hoje eu tenho um moleque de quatro anos que não fala comigo sem falar palavrão, e eu acho engraçado. Dá para perceber que os conceitos da gente vão mudando.

- Concessões!
- Conceito, não é concessão. Eu não abro mão um milímetro para a participação de ninguém que não seja da minha categoria. Não existe concessão a nível da luta específica para o da minha categoria. Nem tampouco haverá concessão da minha parte do plano político. Acontece que a política é uma coisa mais ampla e nós temos que aprender a conviver com a sociedade como ela é. Quando você falou de esquerda...

- Esse discurso é muito velho, eu não agüento mais!
- Você sabe que esse não é meu tipo de palavreado com frase de efeito. A esquerda festiva usa muito, mas você sabe que eu não compactuo com isso. Essa meninada que está aí é o resultado de um regime arbitrário. Temos que entender que essas pessoas fazem parte de uma sociedade da qual nós também fazemos parte e que, embora a gente não concorde, não é nosso papel denunciá-los como algumas têm denunciado. Eu acho que eles não deveriam ser presos nem torturadas por que dizem determinadas coisas. A sociedade é que deveria se encarregar de julgar, e daí minha tranqüilidade em conviver no meio de tanta confusão. Quando os trabalhadores entrarem na briga pra valer, não há esquerdinha, não há direitinha, não há esquerdóide que passe na frente da classe trabalhadora, por que ela não se deixa mais enganar. Essas pessoas podem estar participando do PT, como participam do PTB ou do PMDB, e tem esquerda em todo o lugar, menos do PDS. Nós precisamos criar um Brasil sem extremos, tanto de esquerda com de direita.

- Lula, você é um homem simples, um trabalhador. Você não se deixa deslumbrar pelo intelectual?
- Eu tenho um conceito sobre os intelectuais e... é lógico que dentro da intelectualidade você tem milhares de pessoas volúveis. É aquilo que a gente costuma chamar a amigo da esquerda na língua e da direita no bolso. E aí, veja, eu tenho muita convivência com intelectuais e conheço gente de extraordinária decência que nunca procurou, em nenhum instante, tentar fazer com que eu abrisse mão dos meus princípios. Existem pessoas boas dentro de todos os setores da sociedade, eu acho que dentro da área intelectual tem pessoas extraordinárias.


- Então você não se sente enfraquecido ou inibido frente ao intelectual?
- Ah, não, de jeito nenhum. Se há uma coisa que fez com que o sindicato chegasse até onde chegou é porque eu nunca me curvei diante...



- Lula!
- Eu acho que o trabalhador é igual a qualquer outra pessoa. Se alguém tiver que se curvar, são as outras pessoas em relação aos trabalhadores.





- Deixa eu te perguntar uma coisa. Quando Marx fez suas propostas criou-se um maniqueísmo, a má é a classe rica, e a boa a classe pobre. Depois o Henry Ford inventou a produção em série e com isso a classe média afluente. Então você fala do patronato, que seria rico, e você fala do operariado. E como é que fica a classe média?
- Eu acho a classe média muito volúvel e não gostaria que essas pessoas vissem isto como uma coisa ofensiva, mas no sentido de tentar conscientizá-las de uma coisa... a classe média tem dois automóveis, tem duas televisões a cores, mora num apartamento ou num sobrado, ostenta e esquece a classe trabalhadora. Isso é histórico no Brasil. Agora, eu acho que o governo cometeu um pecado capital quando praticamente dizimou a classe média. Daí que o Delfim Neto voltou exatamente para tentar enganar a classe média como enganou com o milagre brasileiro, sabe, dando universidade, dando privilégios. Eu acho possível uma unidade entre os setores da classe média que se tornaram proletários e uma classe trabalhadora que almeja melhorar sua situação.

- Você diz que a classe média é iludida e volúvel; você não acha que ela é, antes de tudo, muito angustiada pelo poder aquisitivo, nessa necessidade de manter as aparências?
- É por isso que eu a chamo de volúvel, porque muita gente come mortadela arrotando peru. E o trabalhador, desgraçado, ele não pode comer nem a mortadela nem o peru; de vez em quando ele come ovo e arrota ovo mesmo. Daí que eu acho que a classe trabalhadora tem muito mais o que dar para a classe média, a nível político.




- Mas não é perigoso endeusar a classe trabalhadora como se ela fosse uma coisa perfeita?
-Não, eu não estou fazendo nenhum elogio à classe trabalhadora. Em primeiro lugar é a classe que mais conheço; em segundo lugar, eu tenho certeza de que só haverá transformação da sociedade brasileira se a classe trabalhadora quiser que haja. Daí, como no mundo inteiro, historicamente, a classe trabalhadora é a propulsora das transformações que existem por aí.

- Sempre comandada por gabinetes.
- A minha briga é para que a classe trabalhadora não seja a massa de manobra nem de político, nem de governantes, nem de empresário. Ela tem de acertar e errar pelos seus próprios pés e pela sua própria cabeça. A gente sabe das coisas, o que a gente precisa é conseguir ganhar os espaços suficientes para começar a falar. Modéstia à parte, a gente já ganhou algum espacinho.





- Quando digo elite, eu não digo a financeira, mas a intelectual.
- Eu acho que a sabedoria que está dentro da cabeça de um trabalhador que tem uma experiência de vida de anos, é imensurável. Mas as vezes a pessoa não consegue colocar no papel aquilo que tem na cabeça. Isso acontece comigo e nada me impede que eu chame um assessor e a fale: " Olha, eu quero falar isso, isso, isso."


- Você é que está ficando de gabinete, não?
- Essa história de que eu estou esquecendo as bases, eu acho que é muito dos meus opositores; as coisas a gente prova é na prática, sabe? Eu não acho que faço concessão aos intelectuais e a nenhum setor da sociedade. Eu acho que eles têm o direito de participar em igualdade de condições e nós temos que discutir e levar em consideração aquilo que é a idéia de cada um. Daí que eu acho que não é concessão você participar junto com qualquer tipo de pessoa. Eu me reuni com dezenas de empresários, conversei com comandante do 2º exército, com o ex-ministro Petrônio Portela, com Simonsen, Delfim Neto, Reis Veloso, e nunca fiz concessão nenhuma; eu gostaria que ficasse bem declarado: o dia em que eu perceber que terei que abrir mão dos meus conceitos de honestidade, eu deixarei de fazer política.




- Roberto Carlos é o homem que mais vende discos no Brasil. Eu vejo a peãozada nas lojas dos supermercados comprando monte de discos Roberto Carlos. Eu não vejo nenhum comprar discos de Chico Buarque de Holanda. Se você acha que o pessoal está pronto a marchar pelas próprias pernas, como é que você explica este contrasenso?
- Bom, primeiro que você não vai medir a minha opinião, o nível político das pessoas, pelo disco de Roberto Carlos.




- Ah, meço!
- Não, porque se você for no sertão, você vê pessoas comprando discos de Tonico e Tinoco...


- Isto é sertão.
 - Se você entrar no meu carro você só ouve música caipira. Nem por isso sou atrasado, nem por isso eu penso menos.



- Ao contrário, eu acho que são raízes. Mas Tonico e Tinoco não são alienadores.
- Nem por isso as pessoas que gostam das músicas de Roberto Carlos deixam de ter idéias próprias. E inegavelmente o Roberto Carlos tem músicas gostosas de serem ouvidas.


- Tá fazendo a tua média...
- Não, veja. Eu tenho sérias restrições ao comportamento político de Roberto Carlos. Ele é um cara que, pelo nome que tem, deveria tomar posição política. A música dele não traz mensagem nenhuma política, é uma mensagem muito no dia-a-dia nosso, do cara que a namorada largou, do cara que a mulher botou chifre, do cara que botou chifre da mulher...



- E quando o Roberto Carlos entrou naquela campanha do Ano internacional da Criança? Não era o momento de passar alguma coisa? Ou não tem nada a ver?
- Eu acho que às vezes a gente peca por não tomar posições. A campanha do Roberto Carlos do ano 1 da criança, eu acho que são compromissos que ele tem com o outro alienador que é o Roberto Marinho. A programação da TV Globo é basicamente essa... daí minha bronca com Roberto Carlos e não só com ele, com Pelé também. Eu fiz críticas aos 2 porque eu acho que os homens da dimensão deles poderiam tomar posições não contra o governo, mas favoráveis ao povo.



- O Pelé poderia ser um intelectual orgânico da sua raça, como Cassius Clay o é.
- Eu acho que o Pelé poderia ser muito mais, eu não diria igual a Martin Luther King, mas ele poderia se espelhar naquilo que o King fazia, para ele fazer por seu povo.



- Me chocou muito que você tenha ido na boate Gallery, que e o templo da alta burguesia e da futilidade. Me chocou ver você com um colunista social tirar fotografias inclusive com a camiseta do Gallery. Não me vem com saídas de que "eu tenho que estar em todos os lugares". Estou cobrando essa traição.
- Olha, pus a camiseta, mas não vesti.


- É a mesma coisa.
- Você pega a reportagem, que não é isso. Veja, eu acho que carece de uma explicação.

- Carece mesmo.
- Primeiro, que você vê a matéria que está publicada naquela revista que está o Marlon Brando e aquela mulher lá pelada fazendo as coisas, você percebe que a reportagem não tem nada a ver com o Gallery. Eu fui contratado para fazer uma reportagem para a Manchete e passei dois dias inteirinhos fazendo essa reportagem. No segundo dia à noite eu tinha até uma reunião com os trabalhadores e quando terminei, eu convidei o repórter e fotógrafo para ir lá em casa tomar uma pinga.


- Mentira ! Você está tomando já muito o uísque.
- Eu tomo uísque . Não digo que eu não tomo uísque, não. Mas prefiro a pinga .

- Lula, como você está político!
- Minha mulher é quem pode te dizer... aí tomamos uma pinga e eles falaram: "Vamos jantar. Já que têm dinheiro para gastar, vamos gastar, que o dinheiro é da revista mesmo". Aí Marisa falou: "Você vai sozinho. Eu não posso ir que as crianças estão dormindo ". E fomos pra São Paulo mesmo. O cara falou: “Você tem problema de entrar num restaurante chique?” Olha, o dinheiro não é meu, certo? Eu entro em qualquer lugar. Aí passamos nessa boate aí do Gallery . Fomos lá, um negócio muito sofisticado, eu acredito que nunca um peão vai poder botar os pés ali. Não entendia nem o nome da comida, um cara pediu uma comida lá gostosa, eu comi, gostosa mesmo. Tomei um Cointreou, acho que era Cointreou, né?




- Você sabe que era .
- Eu sei que tomei uns três copinhos um atrás do outro. Quando vim embora, o dono, um rapaz novo, conversou comigo bastante tempo, um papo inclusive muito agradável, sabe? Eu acho que ele tinha alguma coisa na cabeça porque sabia do que estava falando. Depois ele me ofereceu as camisetas e eu peguei uma para mim, peguei pros meus três filhos e se tivesse mais teria pegado mais.

- Essas mordomias da burguesia não te deslumbram um pouco?
- Não. Eu estou muito calejado para isso, sabe ?

- Quantos anos você tem ?
- 34 anos.

- Não dá para calejar muito... as pessoas pensam que a corrupção é só financeira, mas eu tenho muito medo é da corrupção mental. De repente você começa a achar que a vida está mais fácil, está mais mansa e as coisas ficam bonitas, uma mulher muito bonita, um ambiente maravilhoso. Você está vacinado contra isso ?
- Estou. Na verdade, mulher bonita não aparece assim.

- Para Lula aparece.
- Não aparece... então, se aparecer, mostra aí!




- Vai que tu leva cascudo da tua mulher que tu vai ver!
- Eu sei ... Quando a gente está num processo de negociação coletiva, por exemplo, a gente janta nos melhores restaurantes, nos melhores hotéis, com os empregadores. Às vezes eles não querem descer até a gente e convocam a gente para ir no hotel Ca' D'oro por exemplo. Eu não tenho preconceito de vir aqui ou ir lá . O que me importa, o que está na minha cabeça é uma coisa: no dia em que eu tiver que mentir para os trabalhadores, eu largo, eu deixo de ser representante. Esse negócio não me ilude, esse negócio não me ilude, não me traz... não me atrai, no sentido de fazer com que eu desencaminhe a minha vida por causa de mulher.


- Quando esteve aqui o chanceler Helmut Schmidt você foi nas festas, parece que houve até quase o oferecimento das mulher de para você. E a história contra grandes revoluções e grandes quedas foram feitas na cama. Isso acontece, Lula?
- Eu não sei. Tem uns colunistas sociais... eu acho que os colunistas sociais deveriam arrumar o que fazer em primeiro lugar... Já saiu na coluna social que a Ruth Escobar queria casar comigo, que a Bruna Lombardi queria casar comigo... Deus do céu, se acontece de os grandes problemas serem resolvidos na cama, isso não acontece comigo. Nem os problemas meus e de minha mulher são resolvidos na cama, nem na cama que a gente conversa. Agora, esse negócio de patrão... eu acho que os patrões me conhecem muito bem e jamais fariam isso comigo. Sabem que eu não abriria mão nem um milímetro sequer dos meus princípios de honestidade por causa de mulher ou coisa parecida.




- Você sabe que é um símbolo sexual deste país ? Você sabe que inúmeras mulheres dizem para mim: "Ah! O Lula!" ? Como é que você, nesta carência masculina, quando o desbum está total, como é que você se sente sendo símbolo sexual deste país?
- Bom, primeiro estou tendo consciência de que eu...




- Não fica vermelho, rapaz!
- ... não sou esse símbolo sexual. Eu posso, quando muito, ser símbolo sexual para minha mulher.

- E para muitas mulheres do Brasil. E, por falar de mulher, outro dia eu perguntava ao Jânio Quadros por que a primeira-dama é sempre o objeto de adorno que o político tira da prateleira no momento em que precisa fazer a imagem da família. Me parece que você está entrando muito nessa, também. Você faz citação da sua mulher para compor uma imagem de família, que é a imagem que a sociedade aceita.
- Eu só falo quando me perguntam. Se você me pergunta sobre a minha mulher, eu respondo. Não acho que a mulher de político precisa ser esse negócio que você falou aí. A vida que a Marisa leva não permite que ela tenha uma participação... embora ela faça essas reivindicações, essas queixas de que eu deixo ela dentro de casa, de que eu saio muito. Eu acho que é claro também que nem sempre dá para ela me acompanhar. Do ponto de vista político é importante que ela vá comigo, mas, por outro lado, tem o problema dos filhos. Se o desgraçado do pai já não pode dar carinho, porque as atividades políticas dele não permitem, eu acho que os filhos não podem prescindir do carinho e do afeto na mãe. Eu sou talvez um pouco machista, mas não como as pessoas acham que sou... e a Marisa também tem consciência destes problemas, de que ela não pode andar atrás de mim, porque é incabível a gente arrumar uma pessoa, primeiro que eu não posso pagar empregada.

- Lula! ...
- Não posso pagar!

- Lula! ...
- Também não está na minha cabeça explorar ninguém. E aí é que eu fico puto com as posições de algumas mulheres que fazem isso aí: independente e esse negócio todo, sai para trabalhar fora, ganha 30 milhões por mês e paga a uma coitadinha 1500 para fazer em casa tudo aquilo que ela não gosta de fazer. Por que o mínimo que ela poderia fazer é o seguinte: ela vai trabalhar, para ganhar 30 com contos? Então, divida o salário com aquela que está em casa fazendo trabalho dela.


- E por que não divide também o que o serviço de casa com o marido?
- Seria até bonito e simpático, seria...


- Vem cá, menino. Você hoje tem uma posição de destaque. Não é perigoso o homem seguir como você seguiu e a mulher para ficar doméstica lá em casa, não compreendendo as passadas do marido? Não pode acontecer uma ruptura?
- Eu tenho consciência disso. A Marisa tem consciência disso. Agora eu acho que não chega a romper a vida de um casal se houver pé no chão.

- Mas você reconhece que é perigoso.
- Reconheço. Reconheço que a pessoa passa a viver num meio diferente do mundo dele. Mas eu tenho consciência de que, embora eu tenha chegado à posição que cheguei, no meio político, a única coisa que aprendi na vida foi ser torneiro mecânico. No dia em que eu sair do sindicato eu vou ser torneiro mecânico.

- Você acha que depois de todo esse desbum poderia voltar ao ramo?
- Eu tenho certeza, porque a única coisa que eu sei fazer. O respeito que os patrões têm com a gente é enquanto a gente está aqui numa posição de confronto com eles, mas, quando a gente sai do sindicato, são os primeiros a meter o pé na bunda da gente. Agora, eu sei que o Carlos Villares vai ter que me aturar doze meses lá dentro por que, quando eu sair do sindicato, a lei me garante doze meses.

- E a candidatura de senador?
- Não. Não existe isso .

- Houve todo uma euforia em torno do Leonel Brizola, como se ele simbolizasse a abertura, quando nós sabemos hoje que ele é apoiado por um grupo de empresários, quando sabemos que ele foi a necessidade do governo em certo momento, e que ele concedeu. Isso aconteceu com Lula? Lula foi uma necessidade do momento, uma concessão do governo?
- Olha, eu preferia que as pessoas de fora dissessem isso, porque eu sou suspeito. Veja, eu acredito que num determinado tempo a imprensa burguesa tentou me usar. Eles precisavam de uma abertura política e tentaram usar a imagem do Lula como um símbolo, até conseguir a abertura que interessava a eles.

- Essa mesma imprensa te massacra hoje?
- Eu acho que eles achavam que eu não passaria daquilo. Era maravilhoso levantar o Lula lá nas alturas, por que o Lula reivindicava apenas 10% de aumento. Hoje eu estou reivindicando uma coisa mais importante que isso; estou pedido transformação para uma sociedade brasileira onde não pode existir o rico e pobre. Por que não existe uma sociedade igualitária? Por que o dono do Estadão tem que ter tudo aquilo que tem e empregados dele não têm nada? Por que na Volkswagen os donos têm que ter tudo o que têm e os empregados não têem nada? Nada mais justo do que os empregados passarem a usufruir de todos os lucros que as empresas têm.

- E as multinacionais ?
- Olha, eu acho que num determinado tempo elas já foram benéficas e são benéficas ainda, se olharmos apenas para o lado da economia. Agora eu acho que faltou honestidade e um pouco de patriotismo para impor regras às multinacionais na altura em que entraram no Brasil. Hoje, essas empresas praticamente se sentem donas do Brasil, fazem o que bem entendem, mandam o lucro pra fora. O governo não tem nenhum controle, não tem peito sequer de as enfrentar. Então eu acho que, num determinado momento, a gente acabará com as multinacionais e irá nacionalizar todas essas empresas.

- Você acredita nisso? Mesmo nos EUA a multinacional é um câncer, ela é que manda.
- A sociedade americana é uma sociedade capitalista, onde cabe qualquer coisa. Mas numa sociedade socialista a coisa é um pouco diferente.

- Mas o que é uma sociedade socialista? Não é o velho e rançoso discurso, onde o trabalhador acaba sendo usado? Você acha que o Brezhnev vive como um trabalhador ?
- Eu não quero pegar o exemplo do Brezhnev, não sei nem falar o nome do cara aí. Eu quero é pegar o exemplo do Brasil. Eu acho que nós, brasileiros, temos que pleitear uma sociedade socialista e a forma que vai ser esse socialismo está na cabeça do trabalhador, não está em nenhum livro, não. O importante é que o trabalhador comece a entender que não é justo chegar ao fim do ano, ele não poder comprar um presente pro filho dele, enquanto o patrão compra tudo.

- Mas o presente do filho dele é da sociedade capitalista.
- Mas por que? Poderia ser de outra sociedade. Ou os trabalhadores socialistas também não dão presentes para os filhos? O que nós não podemos é ficar deslumbrados com o socialismo democrático, a social-democracia européia. Ah! Os alemães vivem bem, os suecos vivem bem - por que tudo provém das explorações que empresas alemães e suecas impõem aqui e no resto do mundo. Isso é que dá o luxo de pagar um bom salário para os trabalhadores deles, a miséria nossa. Agora, e no dia que não tiver mais Brasil para explorar?

- Lula, o reformista radical. Eu não gosto dele porque anula e abafa a individualidade. Eu estou falando da individualidade, não do individualismo na sociedade capitalista. Agora, eu tenho um pouco de medo desse socialismo que anula a individualidade.
- Quando eu digo socialismo, eu me refiro a uma sociedade justa, e igualitária, onde não existem exploradores e explorados, aquele negócio todo. Eu sinceramente não saberia dizer que modelo é esse, mas eu acho que o conjunto da sociedade brasileira, se discutisse isso, saberia encontrar uma solução.


- Aí é difícil o modelo.
- Mas eu acho que o consenso de uma discussão a nível nacional daria um modelo específico. O que eu acho que é incabível, por exemplo, é uma pessoa de 200.000 por mês pagar 2,3000 cruzeiros a um trabalhador, e ainda bota chefe para o convencer que é aquilo mesmo, que está bom.

- Lula, em toda minha vida de trabalho eu consegui um apartamento e um carro, os dois bem classe média decadente e a minha indenização que eu tenho agora. Eu te confesso que não gostaria de dividir isso como ninguém. Isso é feio?
- Eu acho que o que a gente consegue com um puta sacrifício, trabalhando, não é justo a gente dividir. Eu acho justo é que todos tenham esse mínimo que a gente tem. E não tirar de você, tirar de mim, tirar de outros companheiros que têm sua casa. Mas eu acho que tirar de quem tem 100 casas, isso é justo, porque não acredito que ninguém vivendo de salário tenha mais que uma casa. Nós temos que brigar para todo mundo ter aquele mínimo que a gente tem.

- Lula, tem um velho ditado brasileiro que diz "quem cu tem medo". Lula já teve medo?
- Eu já tive medo, sim. acho que até 75 eu era muito medroso. Depois desse ano, em que meu irmão foi preso e torturado, eu perdi o medo. A gente tem que ter na cabeça o seguinte: se a razão pela qual aconteceu aquilo valeu de alguma coisa para a coletividade, então eu acho que vale a pena qualquer sacrifício. A única coisa de que eu tenho medo é, às vezes, fazer propostas inconseqüentes e levar minha classe há uma luta inglória.


- Lula, como você vê a 'moderna' igreja? Eu não acredito nesse modernismo, porque se é moderno não pode ser padre.
- Eu não acredito na moderna igreja. Eu acho que a igreja como a instituição sempre esteve do lado dos poderosos. Agora, algumas pessoas da igreja tem posições maravilhosas.

- E o movimento da libertação feminina ? Você não acha que a mulher é oprimida? O homem é opressor da mulher, é ele que tem o poder aquisitivo?
- Não, eu não acho que o homem é opressor.

- Machão, porco chauvinista!
- Não, não acho. Nós temos que olhar todo um conceito que está formado e não depende do homem de hoje. Depende, historicamente, universalmente... O que você precisa entender é que não passa no homem esse conceito de que ele é o responsável da casa. Também está muito da mulher nisso. Muitas mulheres, a maioria, casam p’ra deixar de trabalhar, ter filho...

- Como sua esposa.
- Agora é diferente. Deixar o cabelo do sovaco crescer e ficar pedindo liberdade para a mulher aí. Ora, meu Deus do céu. Será que cada madame que anda defendendo a liberdade aí não é melhor ela pegar duas prostitutas e pagar um salário digno para elas trabalharem em sua casa fazendo limpeza? Você vê madame de sovaco cabeludo aí pagando 2500 cruzeiros p’ra empregada doméstica trabalhar das 8 da manhã às 8 da noite e ainda vir no sábado e domingo. Está querendo liberdade pro 'eu' e não têm liberdade para todo mundo. É fácil, sabe.

- E a tua mulher ?
- Minha mulher lá em casa não pede dinheiro para mim. Ela tem liberdade de chegar na minha carteira e pegar dinheiro. Só não entrego o envelope de pagamento pr’a ela, ela nem sabe quanto eu ganho... eu acho que liberdade não é a mulher fazer o marido lavar a louça. Ela ainda corta as unhas do meu pé. E não é por que eu obrigo, não, é porque o conceito de liberdade dela é muito diferente: é fazer aquilo que eu quero, é fazer aquilo que ela quer, sem que eu abra mão da minha liberdade. E o que muitas mulheres querem é liberdade colocando o homem como escravo. Eu acho que a mulher...

- É uma bosta!
- ... para ter liberdade, ela conquista dentro de casa essa liberdade e, sem fazer com que o marido abra mão...


- Eu não entendo muito bem porque eu não tenho saco pra agüentar homem. Eu não estou aqui para cortar unha de dedo do pé de homem nenhum, ele não é aleijado, ele que corte, porra!
- Mas você gostaria que um homem cortasse sua unha.

- Não, de jeito nenhum. não sou aleijada!
- Esse radicalismo está da língua para fora.

- Não está não. Pode parar! Pode parar! Pode parar!
- Se você chegasse em casa, de noite, cansada do trabalho, tomasse um belo banho...

- Aí eu tenho um filho da puta dentro de casa vivendo as minhas custas.
- ... tomasse o belo dum banho e deitasse no sofá e o maridinho...

- Aí eu não tenho marido, tenho um bicha, um desgraçado...
- Eu não sou contra esse negócio de lavar louça, não. Quem gosta, lava. Quem quer trocar crianças, troca. Eu não faço isso porque não tenho o costume de fazer, não vou fazer. Se isto é machismo, eu sou machista.


- Você é! É, está encerrado o papo. Você é um puto dum machista.
- Mas eu não acho justo eu saír de casa às oito da manhã e ainda fazer...

- Mas a Marisa fica lá socada, não sabendo nada do mundo.
- Reconheço que o trabalho da mulher é muito mais ...


- Maçante... é muito desgraçado, alienante.
- ... muito mais sofrido que o do homem. E reconheço que algumas trabalham só por anseios de independência, mas a maioria trabalha para não morrer de fome. Agora, nós precisamos ver o seguinte: universalmente sempre houve briga entre o trabalho do homem e da mulher. Em alguns países, isso está acontecendo no Brasil, quando se abre um campo de trabalho muito grande para a mulher é para baratear a mão-de-obra. Nós não podemos permitir que se use a mulher para isso. A gente não pode pensar em jogar a mulher no mercado de trabalho enquanto houver excesso de mão-de-obra. Meu medo é esse. E não é nem a mulher em si, é quanto à participação, o direito de trabalhar que todos nós temos.


- Ainda dentro do assunto mulher; tão aí com uma campanha muito grande, nacional, aproveitando as mulheres terem começado a tomar posições políticas sérias... muita gente séria começou a reivindicar creches, salários iguais, e então jogarão assim uma areia nos olhos das mulheres com essa campanha a favor ou contra a legalização do aborto. Como você vê isso ? P’ra mim é jogada de areia.
- Como homem casado que sou, tenho uma mulher, eu sou favorável à legalização do aborto. Eu acho que tudo o que é proibido é pernicioso. Proíbem a maconha e ela anda dentro da delegacia, como vi um delegado dizer. Proíbe-se não sei o que lá e as coisas estão acontecendo por aí. Proíbe-se aborto e as menininhas que conseguem iludir alguns homens...



- Coitadinhos dos homens... me vê um lenço que eu vou chorar de pena dos homens ...
- São poucos os homens que têm cara-de-pau de cantar uma mulher sem que ela dê motivo... Eu acho que a legalização do aborto foi evitar que, a coisa sendo proibida, as mulheres vão nas benzedeiras da vida, que estragam muitas, estragam o organismo. Então eu acho que deveria ser legalizado, mas acho que o aborto é uma questão também de consciência, de formação, de cultura de um povo.


- Você deixaria tua mulher fazer um aborto ?
- Não. Se ficar grávida, tem que ter. Agora, eu tenho que respeitar também a vontade dela. Se ela achar que não dá...


- Um pedido que eu faço: antes de você fazer qualquer pronunciamento a esse respeito, sendo hoje um mundo líder nacional, pense muito bem.
- Eu nunca conversei com Marisa sobre isso. Depois desta entrevista eu vou conversar com ela. E o posicionamento que a Marisa achar que deva ser, depois de discutir muito com ela, é o posicionamento meu, o oficial. Quando eu falar agora, eu falo em nome da minha mulher.


- Lula, você é muito moço: como você vê o retorno dos velhos políticos? Dez anos pesam pra caramba. Eu vi o Brizola, que foi um sujeito mais ou menos importante nesse país durante 15 anos, e ouviu os Vargas todos, eu vi toda essa cambada que está voltando aí. E que está voltando endeusada, dizendo as mesmas coisas e muita gente aplaudindo.
- Eu acho que a gente não pode desrespeitar, não pode deixar de ...


- Ouvir os mais velhos. Não me venha com essa conversa!
- Eu acho que a gente não pode desrespeitar o que representam algumas figuras políticas do passado. Eu tenho algumas restrições à forma de heroísmo com que essas pessoas voltaram. Eu acho que herói, efetivamente, é a classe trabalhadora, que ficou aqui 15 anos padecendo da irresponsabilidade de algumas pessoas no passado. Eu acho que as pessoas podem voltar. O Brasil é o lugar delas, mas não venham querer cagar regras para a classe trabalhadora, não, que ela é muito mais vítima da revolução do que qualquer um deles.


- Eu vou te dizer alguns nomes, e gostaria que você fosse objetivo na resposta. Castelo Branco.
- Os ideais de Castelo Branco eram melhores do que os generais que o sucederam.


- Médici. - Eu acho que foi o propulsor da grande mentira brasileira.


- Figueiredo. A abertura aconteceu mesmo ?
- Você sabe que eu não discuto a questão do homem Figueiredo. Às vezes tenho a impressão de que Figueiredo é vítima de um regime que está aí e que com outra pessoa seria a mesma coisa.


- Golbery do Couto e Silva.
- Se ele é, efetivamente, o idealizador de tudo isso, então é uma pessoa perniciosa a sociedade brasileira.


- Mas os grandes movimentos de trabalhadores sempre foram inspirados por alguém de elite. O próprio Marx era um homem de elite, vivia com uma condessa. E Engels, o grande injustiçado, era um operário que passava para ele o que precisava ser feito. Você acredita piamente que a classe trabalhadora hoje saiba caminhar sozinha sem necessidade desta elite, quando você mesmo já está fazendo concessões para essa elite deixando-se envolver no PT?
- Eu acho que a classe trabalhadora já consegue andar pelas próprias pernas.



- Um homem de sua grande admiração.
- Tiradentes.


- E uma mulher.
- Minha mãe.


- Por que? Porque anônima e lutou ?
- Eu sei que todo mundo dá valor à mãe, mas a minha mãe conseguiu criar cinco homens, todos casados, e três mulheres. Não criou nenhum bandido, nem marginal, e isso na maior miséria, na maior dificuldade. E hoje eu fico pensando na facilidade com que as mulheres querem que as coisas aconteçam. E fico pensando que as mulheres antigamente eram muito mais mulher, em todos os sentidos.


- Lula, qual é o teu signo?
- Escorpião.

- Haja deus!




Entrevista concedida à apresentadora de rádio e televisão Xênia Bier
e publicada na Revista Especial. nº 5 - abril de 80 (pág. 234 a 278)