sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nona Entrevista - Folha de São Paulo

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* Apresentação

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Uma tomada e posição firme e clara a respeito da atuação dos partidos políticos brasileiros frente aos problemas da classe trabalhadora tem caracterizado, desde o início, os pronunciamentos de Lula. Nesta entrevista, mais uma vez ele expressa seu desapontamento pela omissão dos políticos diante das necessidades da classe trabalhadora. E aponta a falta de trabalhadores entre os parlamentares como a causa de os problemas da classe não serem levados devidamente à Câmara e ao Senado. Daí lula defender criação de um partido dos trabalhadores.
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Fala também da presença das Forças Armadas na vida política e aponta os aspectos negativos dessa presença, inclusive para as próprias Forças Armadas.
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- Que opinião você tem sobre a classe política brasileira? - Em primeiro lugar, a classe política hoje é muito elitista, bastante distanciada da classe trabalhadora. Ainda recentemente, em Brasília, foi decepcionante para nós constatar essa distância dos políticos em relação aos nossos problemas. Mas existem diferenças entre a situação e a oposição. A oposição está cumprindo o papel dela, de criticar os atos oficiais que não condizem com as necessidades do trabalhador. Por exemplo, seus integrantes estão frontalmente contrários ao decreto 1632 e às reformas. Por outro lado, os políticos da situação são obrigados a fazer tudo o que o governo quer. Assim, uns estão comprometidos com os trabalhadores e outros com as regras do jogo.
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Também acho que existem pouquíssimos representantes dos trabalhadores na Câmara e no Senado. Podemos contar, quando muito, meia dúzia de parlamentares que são trabalhadores, vieram do nosso meio. O MBD, é verdade, tem se mostrado bem mais acessível às reivindicação da classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, sendo o partido da oposição. Mas eu acho que, no bipartidarismo, é mais importante escolher o homem que se afina mais com os programas da classe trabalhadora. São esses homens que são escassos. Existem alguns. Devemos separar o bem do mal e não colocar tudo num mesmo saco.
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- É possível criar um partido dos trabalhadores agora, ou você acha que ainda está na hora das alianças do trabalhador com a classe política tradicional? - O problema é o seguinte: eu continuo com a teoria de que, enquanto o trabalhador votar no patrão para que ele proteja nossos interesses, a situação não vai se alterar. Acho que a classe trabalhadora terá que se preparar politicamente para agir politicamente. E realmente penso que a classe trabalhadora deverá fazer um partido político nessa caminhada e um partido que terá mais chance de vencer do que qualquer outro. Um partido político será a saída para a gente e também para outras camadas - todos que são trabalhadores, que vivem de salários, deveriam participar. Falta muito para chegarmos ao estágio do partido político, mas estou convencido de que o caminho é esse. A viagem de algumas lideranças sindicais a Brasília foi um primeiro asso, mas o ideal seria a presença de gente nossa lá, que imediatamente tomasse a posição adotada aqui pelas bases. Há uma confusão quando se fala de participação política. O que eu quero dizer é que os sindicatos de trabalhadores devem exercer uma infuência sobre toda a classe política.
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- As reformas políticas do governo Geisel trazem alguma esperança para a classe trabalhadora? - Essas reformas confirmaram algumas coisas que venho pregando: há muita gente aí que fala em democracia e fala contra a democracia relativa, mas também muita gente que quer a democracia relativa, uma democracia só para eles, sem incluir os trabalhadores. Essa preocupação eu tenho em nome da classe trabalhadora. Há muita gente dentro do partido do governo que não tem coragem de votar contra o decreto 1632. Para eles, a classe trabalhadora só tem direito de produzir, não tem direito de usufruir do que produz.
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- Você tem alguma esperança de que a candidatura do general João Batista Figueiredo, pela Arena, ou a do general Eules Bentes Monteiro, pelo MDB, tragam benefícios concretos aos trabalhadores? - Eu acho que o candidato ideal à presidência da República seria aquele que, escolhido no meio do povo, fosse eleito pelo voto livre e direto da nação. Como trabalhador que sou, impossibilitado de escolher o presidente da República, faço votos que o colégio eleitoral escolha o melhor dentre os dois candidatos indiretos.
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- Como você vê a atuação política dos militares dentro do regime brasileiro? - Num regime democrático normal, os militares, como qualquer outro cidadão, devem participar, concorrer a eleições, etc. Agora, quero chamar a atenção das Forças Armadas para um aspecto muito importante. No mundo inteiro, as Forças Armadas são admiradas pelo povo, porque seu papel principal é assegurar a paz no país, contra ameaças externas. Então, a sociedade em geral admira a abnegação e o esforço dos militares. O que me preocupa é que no Brasil os militares assumiram tantos postos de comando que a culpa de tudo o que acontece de ruim recai sobre eles. Isso é extremamente negativo.
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Já tive oportunidade de conversar com altas autoridades das Forças Armadas no Brasil, e notei que o desconhecimento dos problemas da classe trabalhadora é muito grande. Acho que é importante que os militares deixem de ver os trabalhadores como os únicos responsáveis pela paz social, e que considerem também os empresários como um lado da questão. Seria muito interessante que lideres sindicais pudessem falar na Escola Superior de Guerra, que, a gente nota pelos jornais, é um grande foro de debates da situação nacional, e onde os empresários falam.
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Gostaria de falar na ESG porque seria uma oportunidade para mostrar aos militares que a classe trabalhadora está muito mais interessada na grandeza do Brasil, na criação de um país que seja realmente uma potência, do que a maioria dos empresários, que só pensam nos seus lucros, esquecendo suas obrigações com a nação.
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- Como se resolverá o problema do peleguismo na estrutura sindical brasileira? - Só acabaremos com o pelego quando, livremente, pudermos decidir a configuração de uma nova estrutura sindical para o Brasil, com a participação da classe trabalhadora nessa confecção. Só então poderemos acabar com o comodismo que existe no sindicalismo brasileiro, quando os presidentes de sindicatos não forem mais donos das eleições, quando todas as chapas concorrentes tiverem o mesmo direito de participação.
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- O que separa a classe trabalhadora do governo ? - O que separa o trabalhador do governo é principalmente o modelo econômico implantado que só beneficia as empresas, prejudicando os operários. Nos conflitos que aparecem, o governo, na maioria das vezes, toma o partido dos empresários, sem perceber que só haverá realmente paz social quando existir equilíbrio entre o capital e o trabalho. A prova disso está aí para todo mundo ver: em todos os países desenvolvidos existe esse equilíbrio, o governo não toma sempre o partido dos empresários.
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- Que condições mínimas o governo precisa oferecer para o nascimento de diálogo com os trabalhadores? - O fundamental realmente é a liberdade e a autonomia sindical, com o governo interferindo no relacionamento entre as empresas e os trabalhadores somente quando chamado. Ou seja, que o governo deixe de tutelar a classe empresarial e a classe trabalhadora, como faz até agora. Você veja, quando a inflação aumentou muito, os trabalhadores foram os prejudicados. Nossos salários foram arrochados, as greves foram proibidas e, nem por isso, a inflação diminuiu. Acho que se o governo entendesse, por exemplo, que estamos suficientemente preparados para defender nossos direitos, compreendesse que os trabalhadores são verdadeiros patriotas que se sacrificam pelo desenvolvimento nacional, e que só reivindicamos uma participação justa na riqueza, as coisas ocorreriam melhor. Para isso, é preciso que o governo deixe de fixar índices de aumento salarial que não correspondem à realidade, que são inferiores à inflação e à produtividade dos operário. As negociações diretas entre patrões e empregados são mais realistas; nós sabemos o que podemos pedir, também não queremos aumentos absurdos, que levem os empresários a fechar suas fábricas, porque precisamos trabalhar para sobreviver.
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- Em l976, você dizia que Arena e MDB são iguais, porque há trabalhadores na Arena e patrões no MDB. Depois disso você modificou um pouco sua posição, ou continua com uma visão algo obreirista do processo político? - Sempre tive uma preocupação com os políticos e os intelectuais, porque a história nos mostrou que a classe trabalhadora foi usada e não se beneficiou com isso. Continuo com o mesmo ponto de vista: a classe trabalhadora deve caminhar com suas próprias pernas. Existem certas lutas que a classe trabalhadora deve encaminhar sozinha, como existem outras que não são apenas nossas, mas de toda a nação, Nesses, casos, nós podemos nos aliar a ouros setores sociais.

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- Por exemplo. - Por exemplo, uma greve por maiores salários. Acho que a classe trabalhadora não tem por que se aliar a estudantes, intelectuais e políticos nesse caso, Já reivindicação pelo estado de direito democrático é de interesse de toda a nação, podemos então lutar em comum.
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- Explique melhor como é esse partido do trabalhador que você tem na cabeça. Só entra operário? Alguém mais entra ? A estrutura será baseada na do extinto PTB? - Primeiro, há uma diferença muito grande em achar que deve ser de uma maneira e saber se na realidade é possível ser dessa maneira. Eu não tenho um partido na cabeça. Quando falo em partido, não falo em partido trabalhista, mas em partido do trabalhador. Nada parecido como extinto PTB, que, pelo que sei, era composta também por patrões. Acho que devemos começar pela participação política do trabalhador, sem prevenção contra ninguém, sem discriminar siglas. É essa participação que vai canalizar depois para a criação do partido.
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Nesse período, temos que nos preocupar com a identificação de políticos que estejam dispostos a levantar nossas bandeiras, porque também não podemos abandonar nossos sindicatos para disputar eleições legislativas. É preferível, atualmente, buscar esses políticos mais identificados com a classe trabalhadora. Existem pessoas assim no Brasil. Ao mesmo tempo, vamos tentar renovar essa estrutura sindical questionando os dirigentes omissos.
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Ainda acho que as autoridades deveriam levar a sério os dirigentes sindicais autênticos. Porque posso dizer, sem medo de errar, que os dirigentes omissos que cercam o governo, que querem enganar a classe trabalhadora e o governo, todos estão mentindo. Se alguém diz ao governo que o trabalhador está satisfeito, esse alguém está mentindo. É por isso que as autoridades deveriam dialogar com os dirigentes autênticos, porque não nos interessa enganar nem o governo nem as nossas bases.
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Folha de São Paulo, 24 de setembro de l978. Entrevista concedida a Getúlio Bittencourt
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terça-feira, 26 de maio de 2009

Oitava Entrevista - Diário do Grande ABC

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23 de julho de 78


Apresentação
Nesta entrevista, Lula volta a analisar a greve de l978. A partir de uma análise mais abrangente, mostra que a grande causa dos problemas pelos quais passa o trabalhador é a própria legislação trabalhista. *** Daí à crítica da política o passo é muito pequeno. *** Diante do debate nacional que se fazia na época pela redemocratização do país, Lula mostra que a democracia que interessa aos trabalhadores não é a mesma que interessa aos empresários, políticos, etc.; que a mudança de alguns artigos da CLT é muito mais importante para os trabalhadores do que o fim do AI-5 e do 477; que, conseqüentemente, a reformulação da estrutura sindical deve preceder a reformulação política, pois só assim será permitido ‘à classe trabalhadora participar em todas as decisões da nação’. *** Ao contrário de pronunciamentos anteriores, nos quais se declarava apolítico, e a um mês da experiência da greve, Lula reivindica agora um espaço político para a classe trabalhadora, pois, segundo ele, “é chegado o momento de ela parar e ser instrumento”. Em outras palavras, a necessidade de o trabalhador lutar pela ‘criação de um partido político que possa representá-lo’ tornou-se evidente para o líder sindical do ABC.

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- Como é que você viu, como líder sindical, o movimento grevista que eclodiu no Grande ABC? Como você faria um balanço desse movimento? - É difícil fazer esse balanço agora. Eu acho que ainda falta fazer a alguma coisa para depois fazermos uma avaliação da greve. Mesmo porque a minha preocupação não é fazer um balanço do que passou, que faz parte já de um passado, mas discutir o que se vai fazer daqui para a frente. Nós poderíamos analisar a greve como um acontecimento natural num momento excepcional. Daí o fato de ela ter tido uma conotação extraordinária, uma coisa impossível de acontecer. Mas, precisamente vocês, que militam há muito tempo junto com a gente, que conhecem nosso trabalho e o posicionamento da classe trabalhadora, pelo menos tinham em mente que a coisa aconteceria, mais dia, menos dia. De que a ganância e a necessidade de fazer esta greve, até para justificar a alta sustentação da categoria metalúrgica, era patente. Estava escrito na mente de cada um dos trabalhadores. Eu não poderia falar nesta greve sem me reportar ao ano de 74, quando já por motivo de salário a classe trabalhadora fez algumas paralisações, como na Ford, na Mercedes e na Volkswagen. Poderíamos depois pegar como um balanço maior a luta pela reposição salarial em outubro do ano passado. Este foi, na minha opinião, o momento mais oportuno para se fazer esta greve. Eu já declarei algumas vezes que a greve só não saiu na ocasião porque não havia ainda uma sustentação de base. E a greve só teria realmente validade se fosse vitoriosa, como aconteceu agora. Não poderia acontecer pura e simplesmente para que fosse registrada como um fato histórico. Então veja, chegou a época do dissídio coletivo e o sindicato tomou uma posição antipática, que não foi bem aceita por muita gente, porque era uma posição de não pedir nada. Com o objetivo de mostrar – e quem participou das assembléias viu intenção – que tudo que nós tínhamos feito até aquela hora era mentira. De que tudo aquilo que o movimento sindical fez, de convocar assembléias, de falar, de pedir 90%, sabendo que vinha 30%, era uma maneira de, a cada ano que passava, ludibriar o trabalhador e fazer com que ele cada vez mais se afastasse do sindicato. Porque ele sabia que o sindicato pedia um determinado percentual que não viria nunca, porque há um decreto presidencial e este decreto normalmente ganha, atendendo ao desejo de poucos e não da maioria. Por coincidência, a greve estourou no primeiro dia após o pagamento com o novo reajuste. Não contentou a ninguém. E eu sempre costumava dizer que se alguma coisa tivesse que acontecer no sindicalismo brasileiro, aconteceria em São Bernardo. E não por causa da diretoria do sindicato, nem pelos olhos verdes do jornalista que viesse escrever. Mas por causa daquilo que representa o trabalhador metalúrgico de São Bernardo no contexto econômico nacional. Ninguém perdeu mais neste Brasil do que os metalúrgicos de São Bernardo, porque, se não bastasse nós deixarmos de ganhar alguma coisa pela implantação da política salarial no ano de l965, se não bastasse a exploração a que éramos submetidos nos anos de 73 e 74, com a crise do petróleo, nós, os trabalhadores de São Bernardo, começamos a perder aquilo que tínhamos: um bom salário e boas condições de trabalho. Porque as empresas, com o argumento de que o mundo estava em crise, começaram a praticar o rotatividade da mão-de-obra com muito mais intensidade, visando reduzir a folha de pagamento, aumentando seus lucros em prejuízo dos trabalhadores, que quando eram despedidos entravam ganhando até 50 ou 60% daquilo que recebiam no último emprego. O trabalhador, então, foi tomando conhecimento de que a política salarial não espelhava sua necessidade, de que em l973 foi roubado em 34% - fora os roubos feitos nos anos anteriores e posteriores - de que não adiantava participar de uma assembléia de sindicato para pedir 60% e de pois cair na realidade, quando chegava na decretação do índice e o governo decretava aquilo que bem queria, sem levar em consideração a produtividade, a rentabilidade das empresas e os prejuízos que os trabalhadores vinham tendo ano após ano. E bastou colocar as cartas na mesa como elas eram, sem nenhum mistério. Mostrar para o trabalhador a verdade, ter a coragem de lhes dizer nas assembléias do sindicato, nos bate-papos que só viriam conversações pra valer quando as máquinas parassem. Eu acho que a classe trabalhadora entendeu a mensagem e percebeu que não era impossível parar as máquinas. E isso aconteceu. As coisas para nós agora tendem a se tornar bem mais claras, porque o trabalhador percebeu que não precisa fazer piquete e nem carnaval para fazer greve. É pura e simplesmente não ligar as máquinas quando ele entrar em serviço.


 Lula, um intervalo aqui. É uma questão que, se é do conhecimento do meio sindical e até de uma parte dos próprios meios de informação, ainda não é do conhecimento do grande público. A maneira como a greve se organizou, se estruturou e que tipo de envolvimento você, Lula, teve com a organização desta greve antes de ela acontecer. - Olha ... Eu vou dizer o seguinte: O problema é muito sério. Eu continuo dizendo que a greve foi um movimento espontâneo. Num determinado momento da história trabalhista, a classe trabalhadora resolveu parar e parar justamente em São Bernardo, onde teve maiores prejuízos, embora algumas fontes ligadas ao governo continuem afirmando que os operários de São Bernardo não teriam razão nenhuma para fazer greve, porque ganham mais que os de outros locais. Eu, pela primeira vez acreditei no poder da mensagem, da idéia da palavra. E aí – eu já falei e talvez não tenha sido publicado até por modéstia dos jornalistas ou, quem sabe, por imposição do próprio dono do jornal – vejo que a imprensa como um todo teve grande participação no movimento que eclodiu em São Bernardo. Porque o trabalhador, de um ano para cá, tem ouvido falar de sindicato, de luta de classe, de reivindicação. Todo santo dia, pelos jornais, pelo rádio e pela televisão, é ele e a mulher escutando, e é o filho dele escutando falar que a classe trabalhadora precisa tomar uma posição.


Mas toda greve, ou todo acontecimento deste gênero, tem um dia, um momento, uma hora. Para que este dia, esta hora e este momento aconteçam, é preciso que haja o que a gente chama de mobilização, de um trabalho de base. Como é que você viu isso? Você sabia desse dia ? - O negócio é o seguinte. Como foi um movimento espontâneo, ninguém sabia do dia. Veja, a greve aconteceu numa indústria automobilística que tem o melhor salário médio da nossa região.


- Mas também que tem o melhor nível profissional da categoria. - É. E poderia ainda dizer que é a empresa onde há o melhor nível de conscientização político-sindical. Poderia dizer até que é a empresa que tem um dos dois melhores diretores de sindicato. Eu acho que bastou esse pessoal dizer a verdade. Há ainda um pormenor: essa empresa onde aconteceu a greve costumava, exatamente no mês de maio, logo depois do dissídio coletivo, dar três ou quatro por cento de aumento para todos trabalhadores. E ela se recusou a dar naquele pagamento. Poderíamos dizer também que o trabalhador dessa empresa estava acostumado a receber, em média, 60, 70 e até 80 horas extras, sendo que justamente no mês de maio foram cortadas essas horas extras e os trabalhadores não receberam nada. Não foram poucos os operários que me trouxeram envelopes de pagamentos estourados, tendo para receber Cr$ 100,00, Cr$ 75,00, Cr$ 200,00, quando precisavam pagar Cr$ 2.000,00 de aluguel. Eu acho que aí está o motivo por que os trabalhadores, no dia 2, resolveram parar.


- Você falou que na época da reposição não havia sustentação de base. Mas o que você entende por sustentação de base? Na verdade, a palavra base vem sendo bem mal interpretada e até Paulo Maluf tem falado em apoio das bases. - O Maluf está certo em falar em sustentação das bases. A base do Maluf são os convencionais da Arena, mas a base dos metalúrgicos é a classe trabalhadora como um todo. A sustentação de base a que me refiro pode ser exemplificada pelo movimento visando à reposição salarial de 34%. Depois de l968, quando tivemos o movimento de Contagem e Osasco, foi um dos poucos movimentos que mobilizou a classe trabalhadora em termos de Brasil, de São Bernardo ao Rio Grande do Sul, de São Bernardo a Pernambuco. Nunca se falou tanto de trabalhador como se falou naquele mês de outubro, de novembro, de dezembro. Agora, era necessário que todos os trabalhadores ouvissem falar que eles precisariam tomar uma posição... E eu creio que o momento oportuno foi no dissídio. Foi quando o sindicato tomou uma posição de mostrar que era tudo mentira, tudo um engodo, e o trabalhador realmente percebeu isso.


- Você interpreta que esse acontecimento tenha sido causa ou conseqüência? Ele é causa de o trabalhador ter chegado a uma posição insustentável ou é conseqüência de uma relativa abertura que possibilitou ou essa movimentação sem uma intervenção ou uma interferência direta no sindicato? - Sempre disse que a abertura deveria ser forçada e não pedida. Eu acho que a greve, realmente, foi um feito, que veio em função de uma repressão salarial a que a classe trabalhadora estava submetida. Foi conseqüência de uma exploração que impuseram à classe trabalhadora com argumentos não verdadeiros por parte de algumas autoridades, quando ao logo de 13 ou 14 anos tentaram pregar que o salário dos trabalhadores é que causava a inflação. Agora, depois de tantos anos, de conter essa inflação através de salários, nós chegamos a 1978 com o ministro dizendo que teremos 40 e não sei quanto por cento de inflação. É uma demonstração viva de que o salão ao causa inflação, salário só seria inflacionário se ele se sobrepusesse à produtividade, e a produtividade sequer é enquadrada no dissídio coletivo.


- Você não acha que, nesses últimos 13 anos, o trabalhador vinha sendo dominado pela atmosfera do medo, em função até de nossa história sobre greve? - Havia um conceito errado de greve. Inegavelmente, foram praticadas muitas greves políticas no Brasil e temos fatos históricos mostrando que algumas empresas nos anos 72 e 73 tinham intenção de que os trabalhadores fizessem greves, chegavam até a organizar determinadas greves. Então, a concepção do trabalhador era de que greve tinha que ter piquete, tinha que derrubar fábrica, tinha que ter polícia, morte e intervenção do sindicato. Acho que o movimento sindical pecou durante um determinado tempo por querer tutelar a classe trabalhadora. E de que forma tutelar? Mostrando a ela que toda uma legislação que cerceava os direitos de participação dos trabalhadores. Porém, o raciocínio e simples: existe uma legislação que cerceia o direito da classe trabalhadora e que não foi feita pela classe trabalhadora. Foi feita inclusive pelos nossos patrões.


Se a legislação não é justa e o trabalhador entende que ela ao é justa, cabe a ele passar por cima dessa legislação para mostrar que é injusta. Acho, então, que houve um erro – sem condenar os companheiros dirigentes sindicais – durante os últimos anos, que foi o de querer tutelar a classe trabalhadora. Era comum dizer que determinado (sic) coisa não podia ser feita porque a lei não permitia. Nós não podemos permitir que uma lei feita por uma minoria tenha que ser respeitada pela maioria. Deveria ser justamente o contrário. *** - Isto implicaria uma modificação na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e, conseqüentemente, numa anuência do Congresso Nacional? E, agora, acho que temos que entrar forçosamente na parte política. *** - Temos que definir o seguinte. A CLT foi feita numa época em que praticamente não existia trabalhador no Brasil. Foi feita pela imaginação criadora de um ditador, que copiou determinadas coisas. Poderíamos até considerar que, no momento em que a CLT foi instituída, ela era vantajosa porque não tínhamos nada. Hoje existe no Brasil um conceito totalmente errado de que há sindicatos fortes e fracos. Ora, o sindicalismo no Brasil só é fraco porque é medido pela quantidade de sindicatos que existem, e não pela sua qualidade. Aqui no Brasil se cria um sindicato como se gera um filho. Sindicato deve ser criado quando há realmente interesse da classe trabalhadora e quando há interesse de federações, de confederações e de governo, como acontece no Brasil.


- Mas qualquer tipo de ação sindical não poderá ser dissociada de uma política, porque as mudanças que se pretendem conquistar no quadro legal brasileiro intimamente ligadas ao aspecto político. Então, como você vislumbra a com quista desse direito do trabalhador s em uma estrutura e uma estratégia política? - Tem uma frase que eu costumo dizer, que não é bem aceita nos meios políticos: existem determinados segmentos da sociedade brasileira que só admitem uma reformulação da estrutura sindical a partir do momento em que for feita uma reestruturação política. Ora, como trabalhador, eu vejo a coisa num ângulo mais obreiro. Quem disse que não deverá haver esta reformulação sindical primeiro, para depois haver a reformulação política? Quem me desmente isto? Há mais de um ano que digo que as pessoas que estão num determinado nível acham que devem se reestruturar primeiro politicamente. Quando se fala em democracia nesta terra eu tenho muito medo, porque a palavra democracia realmente é muito relativa, porque a democracia que interessa à classe trabalhadora não é a democracia da qual um grande número de pessoas está falando, como empresários, jornalistas, políticos, etc. Uma democracia que interessa à classe média não interessa à classe trabalhadora, porque se esta democracia vier alcançar apenas os interesses da classe média, essa classe média, historicamente, irá começar a chamar o trabalhador de subversivo e comunista. É por isso que eu acho que as coisas têm que começar de nós, trabalhadores.


- O que você entende por democracia que interessa à classe trabalhadora? - Em duas palavras: é aquela que permite à classe trabalhadora participar em todas as grandes decisões da nação.


 - Mas um argumento que você tem ouvido insistentemente por parte do governo, em particular, e por parte de toda a classe política, é o seguinte: que está barreira a que você faz alusão – a de que o trabalhador não tem o direito de participar- seria ilusória e seria irreal, a medida em que os partidos estão aí, é assegurado o direito de filiação partidária, qualquer trabalhador pode se cadidatar a qualquer cargo eletivo. - Mas veja, as regras do jogo foram ditadas não pela classe trabalhadora, mas pelo poder dominante. Criam-se partidos. Porém, se nesses partidos existem determinadas regras que não foram feitas pela classe trabalhadora, dificilmente a classe trabalhadora conseguirá participar deles. Por outro lado, a castração a que esses partidos políticos também são submetidos não foi obra da classe trabalhadora.


 - Você acha que, diante do movimento da greve e de todos esses episódios subseqüentes, já existe uma consciência de classe do trabalhador? - O trabalhador já tem condições de começar a se preparar para a criação de um partido político. E eu quero deixar bem claro aqui que um partido criado pela classe trabalhadora não é um partido trabalhista. Eu não sei qual será a sigla desse partido. A sigla, naturalmente, deve ser discutida com a classe trabalhadora. Eu não sei se será trabalhista, comunista, socialista, fascista. Mas será aquele que representá-la. Será do programa que for feito que sairá a sigla. Eu acho, inclusive, que poderão sair vários partidos da classe trabalhadora, porque as correntes ideológicas também existem entre nós. Num primeiro plano, contudo, precisamos mostrar ao trabalhador a necessidade de ele participar politicamente. A sigla é conseqüência. Será resultado do trabalho dessa classe.


 - Quando você estava em Salvador, chegou a São Paulo a notícia de que você proporia no Congresso da CNTI a criação de uma Frente Ampla de Trabalhadores. Até que ponto isto é verdade? - Vamos deixar bem claro o seguinte: eu não disse que deveria ser criado ou que eu iria criar um partido. O que eu disse aos jornalistas de lá é que quem sabe surgirá no Congresso da CNTI o desejo da criação de um partido político pela classe trabalhadora. Foi exatamente isto que eu disse, acrescentando, talvez, o desejo de uma Frente Ampla dos Trabalhadores. Por que devemos continuar nos enganando com as camas que preparam para a gente e não preparamos a nossa própria cama? A partir daí o que verifiquei foi a manchete em todos os jornais na Bahia dizendo: Lula propõe frente ampla, etc. etc. Na verdade, é preciso clarear uma posição. Muita gente espera que o Lula restrinja sua atividade à reivindicação salarial. Mas há momento para tudo. Há o momento de reivindicar salário, há o momento de reivindicação política, de pedir segurança no trabalho. Mas ninguém duvida de que há o momento de a classe trabalhadora reivindicar política. Talvez o Lula nem participe disso, mas vários companheiros irão participar.


 - Você vai acenar com esse momento no Congresso do Rio de Janeiro? Você, por exemplo, acha que é este o momento de reivindicar essa participação do trabalhador? - Sim, é este o momento. Eu acho que é chegada a hora até de nós sermos ouvidos num plano de energia nuclear. É inconcebível num país que é tido como subdesenvolvido, onde o povo está carente de coisas primárias, onde temos condições de plantar batata e conseguir que nasça até em pedra, onde cana dá até no ar, a gente pensar em criar uma energia nuclear ao invés de incrementar o programa do álcool. Quando já em l943 a Alemanha utilizava fartamente o álcool como fonte de energia. E eles faziam isso com foguetes. Eu acho que é muito mais fácil tocar um Volkswagen a álcool do que um foguete. E nós ficamos querendo ser como a casca do ovo. Ser grande belo por fora , sendo, que por dentro, temos o frágil. Temos que crescer internamente. E isto somente será possível se usarmos as nossas possibilidades. Essas coisas são tão primárias e continuam a acontecer, que é chegado o momento de agente começar a falar também. Realmente perdemos um momento importante ficando quietos.


 - Quando foi esse momento, Lula? - Quem sabe no Congresso das Classes Trabalhadoras surja uma posição a respeito. E eu explico. Se o assunto é Constituinte, anunciam que o Lula se contrapõe à Constituinte. E isso é verdade. Eu tenho como exemplo três Constituintes que se realizaram no Brasil e nada trouxeram de positivo para a classe trabalhadora.


 - Para que seja posicionado historicamente o problema, parece-nos que é chegado o momento de você fazer uma definição que é a seguinte: qual é sua opinião sobre as reformas anunciadas pelo governo? - Um documento feito por 31 dirigentes sindicais já deu a nossa posição diante das reformas. Embora esse documento tenha sido atribuído a mim, tenho a dizer que eu talvez tenha sido o mais incompetente dos 31 companheiros. É que hoje é Lula pra cá, Lula prá lá. Agora vê a minha opinião, e eu faço questão de que isso seja transcrito integralmente. Essas reformas estão sendo feitas única e exclusivamente no interesse dos grupos dominantes. Não servem aos interesses da classe trabalhadora.


 - Agora vamos voltar às bases. Essa mitologia que se criou em tornou de você por causa da aproximação que você soube conquistar de toda a imprensa e da divulgação constante de suas idéias e de seus pensamentos, também tem criado problemas em sua base. Problemas de ciumeira a nível de organização sindical, a nível de companheirismo sindical, etc. Recentemente, por parte da classe política, a gente tem ouvido uma acusação que corre particularmente no Grande ABC, de que você estaria sendo utilizado por uma facção do próprio governo através de suas posições, para prometer um extremismo que só vai redundar na continuidade desta estrutura atual. Vamos dizer que, pelo próprio encaminhamento normal das coisas, está muito próximo o momento em que o povo como um todo, e não só a classe trabalhadora, vai se manifestar publicamente através o voto. Então, ao querer precipitar uma situação, você estaria fazendo o jogo da extrema direita. - Eu sou chamado por uns de pelego, sou chamado por outros de comunista, sou chamado por outros de membro da CIA, etc. Isso só demonstra uma coisa: que São Bernardo adquiriu, através dos tempos, a sua independência. E isso fere muita gente e serve inclusive para argumentos baixos, como os que se tem usado. Porque nesta terra e tão difícil você encontrar alguém que não seja corrupto, que quando aparece está cercado de inimigos – e isso eu gostaria que fosse escrito mesmo. Grupos de pessoas independentes, que não se submetem a compromissos ideológicos, mas que se submetem exclusivamente aos compromissos com a categoria que representam, que não se submetem a corrupções econômicas, como muita gente, realmente esses grupos têm que arrumar muitos inimigos, desde a ultra-esquerda até a ultra-direita. Isso só mostra a independência que o Sindicato de São Bernardo adquiriu durante os anos. É lógico. E seria duvidoso que as coisas acontecessem de forma diferente, que os grupos políticos existentes atualmente, como um todo, fossem favoráveis às posições que o Sindicato de São Bernardo tem assumido. Eu não vou citar nomes, mas seria duvidoso que o Movimento Democrático Brasileiro, que é um partido de elite, criado de cima para baixo, imposto pelo sistema, pelo regime que eles criticam, fosse favorável ao Lula, que começa a falar de independência da classe trabalhadora. Ora, meu Deus do céu, se eu até hoje me mantive no poder usando a classe trabalhadora como instrumento, vem essa besta do Lula falando em liberdade para a classe trabalhadora! É lógico que eu vou arrumar inimigos. Inimigos estarão dentro da imprensa, inimigos estarão dentro das fábricas - serão os patrões – estarão dentro dos partidos políticos, estarão aí, sei lá, espalhados por esse mundo a fora. Eu tenho convicção de uma coisa, que eu também faço questão que seja colocada: eu me predispus a dirigir o sindicato pela segunda vez, e enquanto não calarem a minha língua na marra eu vou falar. Eu vou mostrar a necessidade de a classe trabalhadora participar da vida política sem ser instrumento. Mas participar por dever, por necessidade de participação. Participar porque ela é maioria e isso não vai interessar a muita gente. Agora, em l981, eu tenho certeza também que me retiro da vida do sindicato, porque eu quero parar com tudo isso, pelo menos na minha pessoa. Mas não tenho dúvida nenhuma de que surgirão dezenas, centenas ou milhares de companheiros com o mesmo objetivo. Se pensam que falando mal de mim vão fazer com que a classe trabalhadora perca a ganância (o uso deste termo foi ignorância ou ato falho?) de participar politicamente, estão enganados. Porque hoje é patente, hoje está aí para todo o ser vivente enxergar: a classe trabalhadora mais do que nunca tem de participar da vida política do país. É chegado o momento de ela parar de ser instrumento , é chegado o momento de ela deixar de acatar aquilo que os outros determinam, é chegado o momento de ela exigir participação naquilo que lhe é determinado na sociedade brasileira. E quando eu falo de trabalhador quero deixar bem claro que não falo só de metalúrgico. Eu falo de todas as camadas de trabalhadores e vou mais longe: eu falo de todos os assalariados. Nós sabemos que está cheio de assalariados privilegiados, que estão sendo assalariados para ferrar a classe trabalhadora. Mas eu acho que existe uma coisa chamada princípio. Existe uma coisa chamada definição ideológica que todo o cidadão tem de ter. Pelo menos é o mínimo que se pode exigir de um cidadão. A não ser que nós queiramos que ninguém seja definido e que alguns que estejam definidos continuem a conduzir este estado atual.


 - Como é que vê Frente Nacional de Redemocratização? - O problema é o seguinte, e eu gostaria de falar em poucas palavras: eu não tenho nenhum objetivo de atrapalhar a Frente. Acho que é um movimento que surgiu, que deve prosseguir...


- Você reconhece a legitimidade popular nela? - Não, seria incoerente da minha parte. Primeiro que eu, Lula, considero a Frente ampla demais para o meu gosto. Acho que ela se abriu demais. Já não é nem leque mais, já é guarda-chuva. E ela também não nasceu do consenso da grande maioria dos segmentos da sociedade brasileira. Ela nasceu de meia dúzia de pessoas que quiseram aglutinar a grande maioria ao seu redor. E basta a gente começar a ver os jornais as divergências já existentes, porque a briga realmente é pelo poder. A briga não é pela participação, pelo programa.


 - Mas você não acha que, a esta altura dos acontecimentos, quanto mais grupos se unirem, quanto mais os estudantes, os trabalhadores, a Igreja, os professores estiverem unidos, mais interessante será? Porque o objetivo de todo mundo é a redemocratização, este pressuposto para se construir qualquer coisa depois. Então, você não acha que quanto mais união houver, deixando lado algumas divergências , melhor será? - Eu acho que deve haver uma união, desde que esta união não comprometa. Quando eu digo trabalhadores, eu acho que entram professores, entram advogados, medidos, uma camada muito grande de assalariados desta terra. Porque houve no Brasil uma proletarização de profissionais liberais, autônomos ou coisa parecida. Quer dizer, todo mundo é miseravelmente operário. Com apenas o privilégio de trabalhar em cinco empregos, enquanto nós, por problemas de horário, só podemos trabalhar num emprego. Então eu acho que dentro dessa proletarização haverá uma união. O que eu não posso conceber é o seguinte: existe uma determinada camada da sociedade brasileira, que é uma minoria, que defende muito a democracia – e eu disse agora há pouco que eu concordo com a democracia relativa do presidente Geisel. Esse pessoal quer uma democracia relativa, uma democracia que atinja até determinada parte da classe média brasileira. Porque a partir do momento em que atingir essa determinada parte da classe média brasileira, esse pessoal vai começar a chamar os trabalhadores de subversivos e comunistas outra vez, e vai cair de pau em cima da gente outra vez. Então, a democracia que nós trabalhadores queremos e que muita gente lá em cima não quer, e uma democracia na qual nós realmente participemos das grandes decisões do país. 


 - Pelo que nós podemos denotar de suas colocações, é a participação em tom majoritário, o que vai implicar praticamente uma participação dentro de uma ótica quase absoluta do trabalhador nas decisões nacionais. O seu modelo de democracia é aquele que considere o trabalhador como timão de um modelo brasileiro? - Eu acho que democracia e realmente você respeitar as decisões da maioria. Ora, partindo desse pressuposto, eu acho que os assalariados deste terra são maioria. E não vejo por que (sic) esta maioria deva submeter-se aos desejos de uma minoria.


- Você acha portanto que o trabalhador deve ter uma participação maior? - Exatamente.


- De que forma? - Participando politicamente. Quem sabe criando um partido político, ou vários partidos políticos. Mas eu acho que deveria haver uma representatividade maior da classe trabalhadora. E tem outra coisa que eu queria responder também: aparentemente há uma divergência minha com relação à Igreja, e eu gostaria de definir alguma coisa. Taxativamente, sem nenhuma cisma de qualquer padre amanhã descer o pau em cima de mim, mas e o seguinte: a Igreja, historicamente, nunca esteve ao lado da classe trabalhadora. Temos que definir isso. E eu não posso confundir esse historicamente (sic) com um ou dois documentos da CNBB, que foram documentos de peso, dos mais extraordinários surgidos nestes últimos dez anos no Brasil. E também não gostaria de individualizar alguns nomes da Igreja, porque eu não conheço todos, e seria muito ruim eu citar um ou dois nomes em detrimento de, talvez, algumas dezenas de nomes bons que existem dentro da Igreja. Algumas pessoas da Igreja são pessoas extraordinárias, e estão realmente tomando posições que convergem para os interesses da classe trabalhadora, mas a Igreja como instituição – e eu não falo sequer da CNBB, mas da Igreja como um todo, mundialmente – nunca esteve do lado da classe trabalhadora. Eu só queria definir isso.


- Mas dentro do ambiente político atual não vai ser possível realizar grande coisa. Tem que haver a redemocratização. Então, a meta fundamental é lutar pela redemocratização. Se a CNBB e a Igreja lutam pela redemocratização, os trabalhadores não poderiam andar juntos também? - Algumas pessoas imaginam que deve haver a redemocratização para poder haver uma liberdade sindical, a uma modificação na estrutura sindical brasileira. Então eu pergunto a mim mesmo, quem disse que primeiro não tem de haver a briga do trabalhador pela modificação da estrutura sindical brasileira, para haver a redemocratização? Quem disse que tem que vir de cima para baixo primeiro, para depois sair (sic) as coisas do nosso lado? Para nós, democracia é liberdade sindical e a partir daí não tenho dúvidas de que alcançaremos uma democracia plena. Aí está a reforma do governo democratizando o país, com fim do AI-5, com o fim do 477, que não tem nenhum interesse para a classe trabalhadora. Alguns artigos da CLT são muito mais graves à classe trabalhadora que o AI-5. Quem disse que mudando esses artigos a gente não conseguiria um democracia não relativa, mas uma democracia plena? Na verdade, a gente começa a paralisar – e é isso que muita gente não aceita – e muito gente desce o pau em cima de mim. E eu quero que continuem a descer o pau em cima de mim, porque só me ajudam. Para o governo, é muito mais fácil reformular o AI-5 do que do que mudar o artigo 528 da CLT. Daí a importância do art. 528 da CLT que nunca foi mencionado por nenhum político, nem por ninguém da classe média ou da burguesia nacional. Por que ? Porque você estaria tirando algumas amarras ligadas à classe trabalhadora que, para quem está pedindo democracia relativa hoje não interessa tirar. Se fosse uma lei ordinária para a classe trabalhadora, a gente poderia conseguir muito mais do que a mudança de um AI-5 ou um 477. Não que eu seja contra a reformulação desses artigos, que dão poderes excepcionais a determinadas pessoas. Mas o que eu acho é que tem coisa muito mais grave para a classe trabalhadora que ninguém nunca falou ao longo dos anos; não é que não falou agora, após a Revolução; não se falou em 56, não se falou em 43. Não se falou em ano nenhum. Desde que a classe trabalhadora brasileira esteja amarrada, pode haver até democracia no país. Isso é o que muita gente quer, mas não é o que a classe trabalhadora quer. Vocês acham que posso me enganar? Que a democracia que o Magalhães Pinto quer é a que eu quero? Que a que o Euler quer é a que eu quero? Que a que o Severo Gomes quer é a que eu quero? E depois falam: “Lula, você quer ser o dono da verdade” . Eu sou o dono da minha verdade, isso que eu disse aqui é a minha verdade, aquilo que eu sinto, aquilo que eu quero.


- Vamos colocar a coisa em termos de trabalhador. Você sabe que nós tivemos o PTB, PTN, enfim uma série de partidos que de trabalhador só tinha o nome, que eram todos manipulados por políticos da burguesia, como você diz. Com a perspectiva da reabertura, está havendo uma movimentação, inclusive aqui na região por parte de industriais, banqueiros, etc., de criar um partido de trabalhadores. A nossa região você sabe que e inexpressiva em termos políticos. - Por causa dos próprios políticos.


 - Dentro desse contexto todo e dentro dessa nova perspectiva, você é favorável à criação de um partido de trabalhadores a partir das bases dos sindicatos? - Sim, e é o que eu prego. Nós não podemos confundir o PTB com um partido de trabalhadores. Não se pode confundir os partidos existentes dentro da Revolução e propriamente o PTB com um partido da classe trabalhadora, porque ele era um partido também de elite. Eu não sei a sigla, eu não sei como se chamará, eu não sei se será Arena, MDB, Partido Comunista, Partido Socialista, PTB, Partido Democrata Cristão. O que sei é que nós trabalhadores temos que criar, talvez não um, mas vários partidos políticos, que atendam aos reclamos das várias ideologias existentes dentro das empresas.


 - Você lideraria um partido deste? - Eu acho que existem dezenas e centenas de líderes dentro das fábricas que poderiam liderar um partido em melhores condições que o Lula. O que eu acho é que eu participaria de um partido com o qual me afinasse ideologicamente. Não sei a sigla. 


 - Já existe um partido ao qual você se filiaria? - Não, não. A partir do momento em que a classe trabalhadora criar um partido ou vários partidos políticos – vários porque as correntes e as tendências ideológicas dentro da classe trabalhadora também existem -, que pudéssemos criar um ou dois partidos dentro da classe trabalhadora, eu poderia me filiara a um deles.


- Qual seria um programa mínimo desse partido? - Olha, eu não sei. Veja, eu quero me colocar assim numa posição de não definir esse partido. Eu acho que esse partido seria definido pela participação dos trabalhadores.


 -Concretamente, o que é que os trabalhadores pretendem fazer a curto e médio prazo em prol desse objetivo de criar partidos próprios? - Veja, eu ao sei o que a classe trabalhadora pretende fazer, concretamente. Eu lancei a idéia de que nos precisamos participar politicamente. Daí ao que a classe trabalhadora almeja é outra coisa. Vai existir um trabalho que não depende do Lula, vai depender de um consenso de um grupo de pessoas.


- Mas concretamente isto se expressaria de que forma? - Não sei. Eu acho que se a gente fizesse esta gravação depois do congresso da CNTI, a gente poderia...


 - Você vai apresentar alguma coisa na CNTI relacionada com a criação do partido? - Há um grupo de dirigentes sindicais que pretende mudar as regras do jogo. Talvez não obtenhamos sucesso, mas eu acho que a tentativa vai ser muito válida. A gente prevê uma reunião de um grupo de dirigentes sindicais no Rio de Janeiro, para uma tomada de posição com relação ao Congresso. No Congresso existe um regime interno que cerceia o direito do trabalhador, que cerceia o direito dos sindicatos de base. Pura e simplesmente ele dá privilégios aos dirigentes sindicais de cúpula, de federação, de confederação. Há uma proposta de um grupo de dirigentes sindicais para ser discutida no Rio de Janeiro que é a seguinte: a apreciação de um regimento interno substitutivo, pois o regimento da confederação não permite a participação da classe trabalhadora. Se esse regimento não for colocado em discussão, a gente pretende fazer um congresso paralelo, não sei com quantos sindicatos, mas com um grupo de dirigentes que expressam o que existe de mais digno no sindicalismo brasileiro. Se esse regimento for colocado em votação e for derrotado democraticamente, com todos os delegados participantes votando, deverá haver um consenso dessa equipe de dirigentes sindicais de, dentro do próprio congresso, ter tentado mudar as regras do jogo. É por isso que eu gostaria que muita coisa fosse falada depois do congresso, porque eu não sei o que vai acontecer. O que eu acho é que há uma disposição de um grupo de dirigentes sindicais do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Ceará, de tentar mudar as regras do jogo. Se não for possível, pelo menos nós temos de mostrar à opinião pública que tentamos mudar as regras do jogo.


 - Depois desse papo de uma hora e cinqüenta minutos , você acha que há mais coisas que precisam ser clareadas, definidas ou colocadas? - Sabe, a gente precisa definir algumas coisas, não para atentar ganhar adeptos, mas para evitar que ganhemos vários inimigos. É o seguinte: é necessário deixar bem claro que o Lula nunca teve nenhuma intenção de ser o dono da verdade. O que o Lula tem como objetivo é ser dono da verdade dele. Da minha verdade. Eu faço questão, como amante da democracia, de ter o direito de dizer a minha verdade, para ser discutida com todo mundo. Então, eu gostaria de definir duas coisas básicas: primeiro, é que tudo que o Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo tem feito não se deve à pessoa do Lula, mas a uma equipe que, juntamente com o Lula, tem tomado posições que têm dado certo e que o Lula leva a fama simplesmente porque é o presidente do sindicato; segundo, e que também nunca tivemos interesse de agredir ninguém, de ofender ninguém, de divergir de ninguém. Nós tivemos pura e simplesmente o desejo de mostrar a verdade da classe trabalhadora, chamada de verdade imprevista. Mas é que nunca se colocou as cartas na mesa para definir quem estava de certo ou errado. O sindicalismo dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Dadema espera é que neste país se reúnam de uma vez por todas, os homens dotados de boa vontade, de sinceridade, de honestidade para definir os destinos desta nação. Porque ela está realmente carecendo de pessoas que, honestamente, coloquem as cartas na mesa e resolvam discutir as soluções para os problemas de uma terra chamada Brasil. Eu acho que é chegado o momento de colocarmos as cartas na mesa com toda honestidade possível e tentarmos encontrar uma solução para o Brasil, que é um país hoje carente de lideranças em todos os setores. Somente os cegos de idéias é que não querem entender isso. Eu chamo as autoridades à responsabilidade, eu chamo todos os segmentos da sociedade brasileira à responsabilidade, porque é chegado o momento de deixarmos a vaidade pessoal de lado. É chegado o momento de nos darmos as mãos e encontrarmos soluções para os problemas definitivos deste país chamado Brasil. 


 - Agora, uma pergunta final: digamos que no tempo cronológico seja impossível toda esta formulação de um partido de trabalhador, cuja sigla não é o caso definir agora, antes das eleições que nós vamos ter a 15 de novembro e que vão definir um bocado de coisas na vida nacional. Você acha que será o caso de essa equipe do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo se definir politicamente, dentro do quadro partidário que nós temos – Arena e MBD? - Eu acho que esta equipe nunca irá se definir politicamente, pelo menos até as eleições de 15 de novembro, mesmo porque o voto é secreto. O que eu acho é que, não essa equipe, mas uma equipe muito maior de dirigentes sindicais espalhados pelos vários Estados, irão tomar uma posição política já em novembro, que terá como resultado a reunião de um grupo de pessoas dispostas a colocar as cartas na mesa. Mas eu a credito que nenhum dirigentes sindical poderá, até por uma medida de bom senso, dizer com quem vai ficar, de que lado estará. Penso, na verdade, o seguinte: não só os dirigentes sindicais mais (sic) todo o mundo tem o direito de votar, escolher um partido político que se aproxime mais daquilo que ele almeja e dentro daquele partido escolher um candidato e votar nele. E começar a brigar já a partir de 15 de novembro para que, quem saiba, nas próximas eleições as regras do jogo estejam mdadas em benefício do povo brasileiro.

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Diário do Grande ABC, 23 de julho de l978.
Entrevista concedida a Eduardo Dantas, Alzira Rodrigues, Alexandre Polesi, Eduargo Camargo e Édison Motta

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sétima entrevista - Senhor Vogue


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julho 78


A entrevista que segue apresenta alguns aspectos que a distinguem das outras. Na realidade, trata-se de uma conversa entre Lula e Ruy Mesquita (diretor de O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde), sua família e alguns convidados. Conversa de quatro horas, na residência do jornalista, durante a qual foram abordados praticamente todos os aspectos da realidade brasileira. O diálogo, gravado, rendeu cerca de 140 laudas datilografadas, das quais apenas alguns trechos foram reproduzidos, resultando um texto final de 15 laudas datilografadas, das quais apenas alguns trechos foram reproduzidos, resultando um texto final de 15 laudas. Dadas as características peculiares desta entrevista, resolveu-se conservá-la como foi publicada. Isso porque ela foge da reprodução pura e simples de perguntas e respostas: entremeando umas e outras, há as observações do entrevistador, suas opiniões, sua avaliação sobre o entrevistado. Em vários trechos, a palavra de Lula não aparece diretamente mas através do que nos diz o jornalista. Outro aspecto interessante neste trabalho é que, sendo o entrevistador não apenas um jornalista, mas um empresário jornalista, de opiniões amplamente conhecidas, a entrevista toma muitas vezes o caráter de debate de idéias. Com habilidade, tenta-se fazer com que Lula dê definições políticas e ideológicas categóricas. Com clareza e sem medo (como, aliás, nota o entrevistador), Lula se define pela participação do trabalhador na vida política do país, por um sindicalismo livre e atuante, pela necessidade de que o Brasil encontre seus próprios caminhos, com a participação indispensável da classe trabalhadora como ‘força viva’, e não apenas como instrumento dos que estão no poder.


Comecei repetindo o que disse ao Luís Carta (editor de Senhor Vogue) sobre a impressão que me ficou da entrevista na TV Cultura (programa Vox Populi), que me revelou, para grande satisfação minha, alguma coisa de realmente novo neste país politicamente traumatizado há quatorze anos, e novo num setor que não estava estagnado há apenas 14 anos, mas desde os tempos do Estado Novo, quando foram lançadas as bases e as estruturas do movimento sindical brasileiro contemporâneo. E o que me foi revelado de novo e de agradavelmente surpreendente foi justamente o fato de que, durante 14 anos de silêncio politicamente imposto, de letargia aparente, o edifício construído sobre aquelas bases e aquelas estruturas fora aluído por um movimento que brotou espontaneamente, no seio do próprio proletariado de São Paulo, em estado de pureza, incontaminado política ou ideologicamente e que se preocupa precipuamente em manter rigorosamente assim. O Lula que me surgia no vídeo, lúcido, objetivo, com uma clareza de raciocínio que se refletia na incrível facilidade de expressão, parecia o produto de um ambiente político totalmente diferente daquele que tem produzido as nossas atuais lideranças (ou pseudolideranças) políticas, eclesiásticas, intelectuais ou estudantis. E, no entanto, sua liderança nascera, evidentemente, nesse mesmo ambiente político. Como foi isso possível? Terá sido, talvez, porque foi o meio sindical o mais duramente atingido pelo estilo político do regime arbitrário implantado no país há 14 anos, a ponto de ter sido abandonado, ou pelo menos relegado a segundo plano pelos profissionais do proselitismo político e ideológico que continuaram a atuar em outra áreas, mais ou menos clandestinamente, durante esse período? É o próprio Lula quem responde: - “Vamos ver se a gente consegue arrumar mais amigos do que inimigos. Em primeiro lugar, eu quero deixar bem claro que procuro ser honesto comigo mesmo quando eu respondo alguma coisa. Eu gostaria de deixar bem claro ao senhor que, às vezes, se eu responder alguma pergunta de uma forma que possa desagradar, não tenho o objetivo de ofender ninguém, mas tenho o objetivo de dizer aquilo que sinto, aquilo que eu tenho vontade de dizer.”


 Peço a ele que não me chame de senhor. E o seu espírito irônico se manifesta pela primeira vêz: - “É muito difícil aprender a tratar os outros de você; mas a gente se acostuma...” - “Eu tenho o objetivo de dizer aquilo que sinto” – continua Lula. - “Com relação ao surgimento do movimento sindical de hoje, eu acho que está mais ou menos patenteado que quando um homem não tem compromisso com ninguém, quando um homem não é corrupto, quando um homem só tem compromisso com suas consciência ou com aquilo que ele representa eu acho que as coisas se tornam mais fáceis.” - “Comigo aconteceu uma coisa muito interessante. Eu era, até outro dia, um dirigente sindical igual a todos os outros...”.


- Mas, em outubro de l975 ele fez uma viagem ao Japão a fim de participar de um congresso dos trabalhadores da Toyota, e, lá no Japão, soube da prisão do seu irmão, que era vice-presidente do seu sindicato. E ele, até então, era um dirigente sindical igual aos outros porque, como todos os outros, sentia medo. -“Eu achava que a prisão era o fim do mundo, tinha preocupação com minha família, com meu filho, com minha, com minha mãe”. De volta do Japão, ouvindo do irmão o que ele sofrera na prisão, resolveu tomar uma posição. - “Porque eu acho que tudo aquilo aconteceu com meu irmão poderia acontecer a qualquer cidadão brasileiro. Naquele momento o medo desapareceu. E, não tendo compromisso com ninguém a não ser com os trabalhadores, resolvi abrir a boca e dizer aquilo que qualquer trabalhador teria vontade de dizer se fosse colocada a ele, diante de um microfone, uma pergunta de um jornalista qualquer. E resolvi dizer algumas verdades e nunca esperei que essas verdades, partindo de um trabalhador, pudessem causar a repercussão que causaram e até a ascensão política do Sindicato de São Bernardo no cenário político brasileiro”.


Para ele a liberdade de imprensa foi um fator muito importante. - “A gente lembra, por exemplo, aquela época em que o “Estadão” e o Jornal da Tarde publicavam aquelas receitas de arte culinária, aquele negócio todo... Quando a imprensa começou a ficar mais livre, começou, eu acho, a descobrir o trabalhador. E daí aconteceu tudo o que está acontecendo até hoje.


- “O trabalhador lê jornal, Lula? - “Veja, e nós analisarmos o trabalhador como um todo, ele não lê jornal. Eu acho que em todas as camadas sociais não são todos os que formam opinião. Eu acho que os trabalhadores que formam a opinião pública da classe trabalhadora lêem jornal.


O problema da ausência de uma divulgação pela imprensa, com regularidade, do que se passa no mundo sindical vem à baila. Lula critica, com total sinceridade, essa falha dos nossos jornais. Eu procuro explicar que a culpa é de ambas as partes. Ele aceita a observação: - “É fácil a gente entender que só vai ganhar espaço nos jornais quando você mesmo procura virar notícia, O que acontece até agora é que a maioria dos dirigentes sindicais têm medo de falar com jornalista.”


Ele, Lula, forçou a mão quando sentiu que podia exercer uma influência sobre a imprensa para que ela atuasse com honestidade, exigindo dos jornalistas que eles escrevessem não aquilo que eles pensam, mas que publicassem aquilo que ele dizia. - “Comecei a ter muitos contatos com jornalistas e comecei a enfrentar a imprensa como ela deve ser enfrentada: sem medo, sem nenhum objetivo de me tornar vedete ou coisa parecida.”


Explicando o medo que ainda sente a maioria dos dirigentes sindicais, Lula diz que parte dele se deve às vantagens de que goza um dirigente sindical e que são duras de perder.
- “É a partir daí que o movimento sindical se perdeu: se perdeu no comodismo que as antigas estruturas proporcionam.”


 Há corrupção, também, no meio sindical. Tento levá-lo a uma definição política. Digo que o problema que ele está expondo não é exclusivo do movimento sindical, mas é um fenômeno que ocorre em todos os setores da sociedade brasileira.
- Você não acha que é uma decorrência do sistema político? - “Concordo, mas sou obrigado a dizer o seguinte: eu acredito, acredito piamente, que neste Brasil existem algumas centenas de homens honestos.”


Ele se recusa a acreditar que cada um tem o seu preço: - “Acredito que existe uma coisa chamada dignidade, que existem muitos homens que têm essa dignidade. Não acredito que nenhum sistema político me fará mudar de idéia.”


Fala, então, no tempo em que vigorava no Brasil um regime diferente do atual, mas no que diz respeito ao comportamento das lideranças sindicais nada era diferente. - “Porque é muito mais fácil ser instrumento de alguma coisa do que ser independente, do que você querer criar inimigos, criar inimigos no bom sentido, você querer defender um ponto de vista que pouquíssima gente, nesta terra, tender a defender. Uma vez eu criticava – e, inclusive, por isso fui mal interpretado – o Montoro, criticava o João Goulart. É que esses homens, que foram tidos como deuses por muitos trabalhadores, nos momentos de sufoco que nós vivemos tiveram poderes para mudar um monte de coisas e não mudaram. Talvez tenham mudado alguma coisa, mas não chegaram a atingir a classe trabalhadora.”


 Neste ponto Lula mostra, mais uma vez, sua dedicação exclusiva à sua classe, sem qualquer conotação política ou ideológica. Para ele, seja quem for que esteja no poder, o trabalhador é sempre um instrumento dos que estão no poder: -“Eu não admito isso, não acho que a classe trabalhadora deva ser um instrumento; ela tem que ter uma força viva, tem que ter uma participação, porque, sendo maioria, jamais poderá ser tratada como minoria.”


Insisto na minha tese: - Você não acha que o sistema político, o regime político é decisivo para que possa atingir esses objetivos que você visa? Você não pensa às vezes, em termos de exemplos, quer dizer, o mundo de hoje, sendo uma vitrina de regimes políticos, sociais e econômicos, você não encontra nele algum regime que você gostaria de ver instalado no Brasil? - “Não, eu imagino que no Brasil, um dia, deve haver um regime que os próprios brasileiros criassem.”


- Você nunca estudou os sistemas sindicais de outros países? Qual é o que acha o mais perfeito, o mais aproximado do seu ideal? - “Para mim o sindicalismo alemão e o sueco são os que se aproximam daquilo que eu gostaria q eu existisse aqui.”


 E são, diz o Lula, porque é nesses países que os trabalhadores têm mais voz ativa, maior participação, maior influência política e social. E conclui: - “Muita gente acha que tem de haver uma reforma política para que haja uma reforma sindical. Eu, às vezes, me pergunto se não poderia ser diferente, se não deveria haver uma reforma da estrutura sindical brasileira para que houvesse uma reforma política.”


A conversa sobre os modelos sindicais vai longe, com observações sobre o sindicalismo inglês e o norte-americano que, para Lula, é muito mais reivindicatório do que político, enquanto o alemão e o sueco são mais politizados. De repente, Lula volta ao movimento sindical brasileiro e aos seus desvios, que critica impiedosamente: - Há 14 anos praticamente a classe trabalhadora brasileira estava dormindo. Nós tínhamos com ponte histórica e, aí, sem ofensa nenhuma, gente com o Werneck Viana e outros que escreveram muito sobre as greves de Osasco, a passagem de Contagem, aquele negócio todo. Se a gente analisar friamente, chega à conclusão de que a greve de Osasco saiu muito mais da Faculdade de Filosofia do que dos próprios sindicatos; de que foi uma greve em que a única coisa que a classe trabalhadora ganhou foi o AI-5 nas costas. Isto, porque muita gente não tem coragem de dizer. Porque nos dias atuais é antipático dizer isto, porque a greve de Osasco é exaltada como um parâmetro histórico nesta terra.”


- Olha, Lula, só gente como você tem condições para dizer o que está dizendo impunemente. Porque se eu disser, vão dizer que eu estou fazendo isso porque sou vendido ao capitalismo americano, etc. Lula conclui: - “Pois bem, então a classe trabalhadora vivia, há 14 anos, um profundo sono, eu diria um profundo sono político, porque produzir ela produziu como nunca. Ela foi explorada.”


Pergunto como é que foi possível acontecer o que está acontecendo hoje, depois de 14 anos de sono. - “Eu estou dizendo 14 anos, mas a classe trabalhadora, ou o sindicalismo brasileiro, está dormindo desde que foi criado.


Ele alertou os empresários, em outubro do ano passado, quando teve reuniões com mais de 30 deles. Ele teve um encontro com o senador Portela e o advertiu de que a caminhada da classe trabalhadora era irreversível e de que, a curto prazo, iria estourar com uma tomada de posição muito séria. - “Quando estourou a greve, para muita gente foi novidade – pô, uma greve no Brasil! Para mim, ela era para ter acontecido, esteve para acontecer na questão da reposição salarial.”


- Por que neste momento preciso?

Lula é cauteloso:
- “Eu poderia dizer o seguinte: há alguns antecedentes que a gente tem que abordar e eu tenho me negado a abordar isso.


Mas, agora, ele aborda. E faz a crítica da política salarial do governo, fala do dissídio coletivo que, pela primeira vez na história do sindicalismo brasileiro, ‘tivemos a coragem de desmascarar’, denuncia a decretação do fator de reajustamento por um homem apenas, o que transforma a luta dos sindicatos por melhores salários numa farsa. - “Eu não pedi índice. Eu fiz questão de provar ao trabalhador que tudo o que nós tínhamos feito até então, em termos de dissídio, era mentira e eu ele, trabalhador, é quem tinha que resolver os problemas dele, que não esperasse que os políticos resolvessem, que não esperasse que o governo resolvesse.”


 Pergunto se ele acha possível um sistema em que cada grupo de trabalhadores discuta com seu patrão, quer dizer, em que, dentro de uma mesma categoria, uma empresa que pode dar mais dê mais e uma que só pode dar menos dê menos. - “Veja, na minha cidade eu tenho duas empresas, mais ou menos próximas. Uma, a Volkswagen, paga Cr$ 11,00 por hora para um trabalhador não qualificado; outra, a Brastemp, paga Cr$ 6,90, e nem por isso deixa de existir fila na porta da Brastemp e na porta da Volkswagen. E tem aquelas empresas que pagam pura e simplesmente o salário mínimo e nem por isso deixa de existir fila na porta daquela empresa, de gente procurando emprego.”


Falamos, então, da situação individual das empresas e perguntamos se ele toma conhecimento dela antes de fazer uma reivindicação, se lê os seus balanços, falamos da diferença entre a situação das empresas nacionais e a das multinacionais, que têm sua matrizes a escorá-las financeiramente, falamos no prejuízo da Ford no ano passado, de Cr$ 280 milhões, que ela pode suportar impunemente, enquanto um prejuízo semelhante de uma empresa nacional poderia significar seu fechamento. Lula não acredita em balanços e nem no prejuízo da Ford e nem tampouco em diferença entre patrões nacionais e patrões multinacionais. -“Para os, trabalhadores, patrão é patrão, seja nacional ou internacional.”


 Falamos na melhora da mentalidade do empresariado brasileiro nestes últimos 14 anos, na consciência que eles adquiriram de que a empresa não é propriedade deles, no sentido de que possam fazer o que bem entenderem sem olhar o interesse coletivo, o interesse social. Lula concorda, em parte, mas acha que em termos do relacionamento com os empregados nada mudou: - “A choradeira é a mesma e os lucros crescem cada vez mais.”


E mostra como têm crescido algumas das grandes empresas do seu setor. - Mas isso é investimento, é criação de novos empregos. - “Ninguém vai investir dinheiro pensando em emprego, vai investir pensando em lucro.”


- Mas lucro é o objetivo de todo mundo e não tem nada de imoral ou de nocivo. Lula não está de acordo com a política de investimentos do governo e na sua crítica, chega até ao programa nuclear. - “Acho que temos de crescer dentro da nossa realidade. O Brasil pensa em usina nuclear quando poderia produzir alimentos, e o mundo está carente de alimentos. -


 Uma coisa não impede a outra. Eu até não sou simpático à política nuclear do Brasil, mas não se pode pensar só em plantar feijão quando se está comprando 4 bilhões de dólares de petróleo num ano. Lula não aceita o argumento. Para ele, seria melhor produzir álcool. - “No Brasil já faz alguns anos que se fala em plano do álcool e investimos bilhões e bilhões, sei lá, até a capacidade de endividar-se a nação numa usina nuclear, quando poderíamos investir muito menos na criação de engenhos, na plantação de cana, de mandioca, de batata.”


Paulo Mendonça interrompe com uma pergunta: “Você identifica o governo com o patronato?” -“Eu diria que o patronato é o próprio governo. Eu acho que o poder econômico é o governo. Eu não consigo entender, como trabalhador, a necessidade da construção de uma ponto como a Rio-Niterói; eu não consigo entender a construção de uma Imigrantes, quando poderíamos construir estradas de ferro. São coisas assim que o trabalhador, por mais humilde que seja, vê, mas não entende.


- O que você preferiria: ser empregado de um patrão particular ou ser empregado do governo? - “Como empregado eu preferiria ser empregado daquele que me pagasse mais.”


 Explico que não é esse o sentido da pergunta. O que eu queria saber é qual é, na sua opinião, o regime político-econômico que proporciona melhores oportunidades para o trabalhador melhorar sua situação material e até subir na escala social. Lula não está interessado na questão de subir na escala social. Ele não cogita de, um dia, deixar de ser um assalariado e nem mesmo de que seu filho possa não vir a ser um assalariado.
- “Num país onde a distribuição de renda fosse em igualdade de condições – aí pouco importaria que eu fosse um torneiro.”


Quem é o culpado pela má distribuição de renda no Brasil? Falamos na carga de impostos que pesa sobre os brasileiros – pessoas físicas ou pessoas jurídicas – proporcionalmente ao nosso grau de desenvolvimento uma das mais pesadas do mundo, nos encargos sociais e econômicos do governo, no desempenho dos quais o governo, indiretamente, distribui a riqueza de forma mais equitativa do que aquela sugerida pela gritante diferença entre indivíduos ricos e indivíduos pobres neste país. Lula não simpatiza com a forma como o governo distribui a renda na forma de benefícios indiretos. Ele aponta as diferenças entre as regiões ricas do país e as regiões pobres, mostra como a região sul recebe a parte do leão e conclui que “a melhor distribuição de renda seria feita a partir do momento em nos preocupássemos em criar um mercado interno.” -“Quando eu digo que o trabalhador precisaria ganhar o suficiente para usar um terno bonito, para ter um carro, para ter uma televisão a cores, para ter, enfim, aquilo que ele produz, quando ele puder possuir tudo isso nós teremos realmente um Brasil mais rico, porque teremos um Brasil com poder aquisitivo interno razoável.”


Ele diz que não aprendemos nada com a história de outros países que seguiram essa evolução, onde primeiro se criou o mercado interno para só depois se cogitar de conquistar o mercado externo. - “Aqui a gente procura exportar aquilo que nós não temos, aquilo que o brasileiro não pode ter. Exportamos automóveis, por exemplo, quando a maioria dos brasileiros não pode ter automóvel, exportamos alimentos quando a grande maioria dos brasileiros é carente de alimentos. Não há poder de compra do povo, não há uma programação de distribuição interna dos bens, não há uma preocupação nesse sentido.


Quanto aos impostos que o empresário paga ele reconhece que são pesados, mas não admite que isso justifique os salários baixos: - O imposto que ele paga não diminui o lucro dele, mas sim aumenta o preço do produto que ele fabrica, o que torna mais difícil a aquisição desse produto pela população. Se ele tivesse que vender por 100 e pagasse 50 de imposto e ele ficasse com 50; mas ele não fica. Ele quer ganhar os mesmos 100 pagando 50 de imposto. Então se torna realmente difícil para o trabalhador participar e se torna, eu diria, até fácil, para o empregador, ganhar.”


 Lula fala, então, nos truques utilizados pelas fábricas de automóveis para iludir os limites impostos pelo CIP, com alterações mínimas em novos modelos de automóveis que justificam maiores aumentos e com a distribuição, a critério delas, dos aumentos globais permitidos, entre os diversos modelos que fabrica, aumentando mais os de maior vendagem e menos os de menor. O CIP, para ele, é uma enorme burla. - Você acha então que o governo prejudica deliberadamente o trabalhador, que faz isso de propósito com uma finalidade política qualquer? Ele acha que o governo é mal informado, que existem pessoas que levam ao governo muitas inverdades, muitas coisas que não condizem com a realidade”, e afirma: - “Dizer, por exemplo, que o aumento de salário e inflacionário é mentira.”


 - Mentira, não. É um dos fatores inflacionários. - Não, não. O aumento do salário seria inflacionário se ele se sobrepusesse à produtividade. Se o trabalhador produzisse 10 e recebesse 11 seria inflacionário. Mas, hoje, ele produz 10 e recebe 3. Como é inflacionário esse salário?


- Você sente o governo como um árbitro ou você sente o governo como um adversário? - “Eu acho que o governo é um adversário pelo simples fato de querer ser tutor de tudo, quando poderia assumir uma posição muito mais política e ficar de fora, deixando que nós trabalhadores brigássemos diretamente com nossos empregadores, sem a intervenção do Governo.”


- Mas então deixa eu fazer a pergunta que já fiz e você ainda não respondeu, desta vez de uma forma mais precisa: isso que você acaba de dizer significa que você acha que o regime liberal-capitalista é mais interessante para trabalhador do que o regime socialista? Permite que o trabalhador atinja mais facilmente os seus fins? - “Eu diria que o sindicalismo só é forte onde existe a ganância de poder, a ganância de ganhar bem, a ganância de participação. Só é forte nos países capitalistas.”


A resposta confirma aquilo que eu chamaria de a castidade ideológica do Lula. Pela primeira vez na história do sindicalismo brasileiro surge um líder sindical – ou um dirigente como ele deseja ser chamado – em estado de pureza. Se vai continuar assim depois que passou a ocupar as primeiras páginas dos jornais, depois que passou a ser vedete de televisão, depois, afinal, que a liberdade de imprensa permitiu que ele, quer queira quer não, passasse a exercer uma liderança política, só o futuro dirá. Mas, temos a certeza de que, no dia em que os bispos da CNBB, os estudantes brasileiros e os próprios políticos deste país adquirirem uma mentalidade como a dele, revelarem o mesmo grau de maturidade, então a democracia brotará espontaneamente aqui, como o capim depois de uma queimada. Durante quatro horas de conversa franca e descontraída, gravada em quatro fitas cassete que resultaram em 140 laudas de jornal, Lula exercitou a prática em que se iniciou depois que ouviu seu irmão contar o que sofrera na prisão: dizer o que pensa. Sem medo, sem restrições mentais ainda quando sabia que podia ferir os que o ouviam, no caso nós, e os que irão ler o que nos disse, ou excitar o sonho dos poderosos. Sem medo e sem restrições mentais quando ele diz que o trabalhador deve ter a mais ampla participação da vida política da nação: - “Eu acho que o trabalhador tem que ter participação em tudo. É lógico que o trabalhador tem que ter participação na política, enfim, eu entendo que a classe trabalhadora, quando chegar a época, tem que escolher os seus candidatos, ela tem que lançar os seus candidatos. Eu acho que o trabalhador deve participar de todas as decisões da nação, até da questão da energia nuclear o trabalhador teria que participar. O que não pode, o que eu acho ruim é que apenas meia dúzia de pessoas decidam tudo numa terra de 120 milhões de brasileiros. Nós não podemos esperar que o governo também abra todas as portas para a gente. Nós temos que forçá-lo a abrir, nós temos que ficar quebrando a fechadura lá. Quer dizer, a porta está fechada, vamos arrombar. Eu acho que a responsabilidade não é do Geisel, não é do governo brasileiro, mas dos 120 milhões de brasileiros para forçar que a coisa aconteça. Eu acho que pelo menos estou me propondo a ocupar um espaço que existe aí e tentar forçar essa barreira... Mas se cada um forçar um pouquinho a gente vai ocupar esse espaço.”


 Sem medo e sem restrições mentais quando, interrogado sobre o que achava mais importante nessa greve que ele liderou, se os aumentos obtidos ou se o precedente aberto, respondeu: - “Não, eu acho que o mais importante não é o percentual, eu acho que o mais importante foi o trabalhador descobrir que é possível medir forças com a classe empresarial. Eu acho que o mais importante foi o trabalhador descobrir, por exemplo, que greve não é sinônimo de baderna, que greve é isto, que existe em nível de consciência, de participação política. E a partir do momento em que o trabalhador descobriu que não é tão difícil fazer uma greve, que não é tão difícil usar a arma mais importante que ele tem, eu acho que as coisas podem se tornar mais fáceis para a classe trabalhadora, sem nenhuma baderna, sem querer ser contra a empresa, sem querer quebrar a empresa, sem querer fazer nada disso, mas pura e simplesmente querer fazer uso daquilo que é mais importante, na relação capital e trabalho, que é a mão-de-obra. E parar de produzir, você entende? Eu acho que isso é fundamental e o trabalhador descobriu isso. E isso não quer dizer, como muita gente fala, que agora o trabalhador vai fazer greve todo dia, toda hora, que vai levantar e dizer: ‘não, hoje eu estou de greve’. Não existe isso, eu acho que não existe isso, sabe? Eu acho que existem essas coisas quando se vive alguns momento de exceção, porque se nós tivéssemos um sindicalismo livre, onde o sindicato pudesse representar a classe trabalhadora, não existiriam tomadas de posição da classe trabalhadora à revelia inclusive dos sindicatos.”


Sem medo e sem restrições, quando, em tom de acusação, se referiu à dispensa de funcionários do Estado de São Paulo; sem medo e sem restrições mentais quando criticou o comportamento de certo tipo de jornalista, como aquele que foi procurá-lo num bar onde jogava bilhar e pretendeu criticá-lo: - “Eu estava jogando bilhar e chegou um jornalista: Ô Lula (o jornalista falava de um encontro do Lula com estudantes, que presenciara), eu acho que tenho que lhe dar os parabéns. Só que eu acho que você estava errado ao responder as perguntas daquele estudante. Eu não admito que trabalhador de salário mínimo use terno bonito. O cara chamou a atenção de todos os caras que estavam no bar. Eu falei: está a fim de brigar comigo ou está a fim de quê? E falei: você sabe de uma coisa – eu vou falar um palavrão aqui – vá pra p... - “Porque, primeiro, eu não sou trabalhador de salário mínimo; segundo, se eu pudesse eu me vestia muito melhor do que me vesti naquele dia e posso lhe garantir até que muitos trabalhadores, na minha profissão, que ganham muito mais do que você, que é jornalista. Você quer ter o direito de ter um carro e eu tenho que comer num cocho. Quando os estudantes resolveram fazer, outro dia, um ato público para angariar esmolas para a classe trabalhadora eu fiz a nota oficial – que fossem dar esmola para a mãe deles...”


Sem medo e sem restrições mentais quando ele contou o caso de uma revista que mandou-lhe um repórter, com fotógrafo e tudo eu queria fazer uma matéria sobre a vida de um trabalhador da sua categoria: - “Chega um pessoal no sindicato: Pô, a tente precisava pegar um trabalhador. Então eu peguei um ferramenteiro da Volkswagen e falei: vai entrevistar o rapaz na casa dele. Então foram. E chegou lá o fotógrafo e disse: Ah, pombas, eu não vou fotografar a sua casa porque a sua casa tem carro; isso não é casa de trabalhador. A concepção que se tem de trabalhador é que ele tem que ser miserável, ele tem que morar em barraco. É uma concepção errada que se faz do trabalhador que tem casa realmente luxuosa para a capacidade do trabalhador. É o mínimo que ele quer de conforto.”


Lula, evidentemente, sabe melhor do que ninguém que somente um número mínimo de trabalhadores neste país poder ter uma casa ou um automóvel. Ele mesmo disse, na nossa conversa, que 70% dos favelados de São Paulo são trabalhadores da indústria de automóveis. E é exatamente esse, e apenas esse, o sentido da sua luta: ele quer que o maior número possível de trabalhadores possa ter casa e automóvel, possa ir pescar no domingo, possa ter um nível de vida compatível com a dignidade humana, como têm os trabalhadores da Suécia ou da Alemanha. E é a singeleza desses objetivos, é a ausência de qualquer conotação ideológica na sua atuação que irrita os ideologicamente engajados da imprensa, da política, das universidades, que até agora viram baldados seus esforços para manipulá-lo em benefício dos seus interesses políticos ou ideológicos, que nada têm em comum com os interesses que Lula defende.



Senhor Vogue, julho de l978
Entrevista concecida a Ruy Mesquita